Na Estratégia de Segurança Nacional de 2025 (National Security Strategy), publicada pela Casa Branca em novembro de 2025, durante o segundo mandato do presidente Donald Trump, os Estados Unidos tratam o Hemisfério Ocidental incluindo a América Latina e, em alguns contextos, até a Europa não como um conjunto de aliados soberanos a serem conquistados pela diplomacia igualitária, mas como uma extensão de sua esfera de influência exclusiva, um “quintal” estratégico para garantir segurança interna, acesso a recursos e prosperidade econômica americana.
Essa visão revive explicitamente a Doutrina Monroe (de 1823), que, em sua nova versão, busca restaurar a “preeminência americana” na região por meio de ferramentas econômicas, diplomáticas e, se necessário, militares.
O documento dedica atenção especial ao combate à influência de potências extra-hemisféricas, com ênfase na China. Ele propõe expulsar empresas estrangeiras principalmente chinesas de projetos de infraestrutura crítica na região, priorizar contratos exclusivos para companhias americanas e utilizar alavancagem financeira e tecnológica para induzir países a rejeitarem investimentos chineses.
Embora não mencione o Brasil nominalmente com frequência, a estratégia afeta diretamente o país, pois a China é o maior parceiro comercial brasileiro há mais de uma década. Nos últimos anos, essa parceria evoluiu para investimentos chineses bilionários em infraestrutura (portos, energia e ferrovias), tecnologia (5G e telecomunicações) e serviços, com dezenas de projetos em andamento ou em planejamento.
Além disso, Brasil e China mantêm parcerias geopolíticas estratégicas, como no BRICS e no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), que promovem uma ordem multilateral alternativa à dominada pelos EUA.
Essa política americana impõe uma lógica de “esferas de influência”, reminiscente da Guerra Fria: “quem se alia à China não pode se aproximar dos EUA”. Ela viola princípios do direito internacional, como a soberania dos Estados e a não intervenção consagrados na Carta da ONU e na Carta da OEA , gera insegurança global ao incentivar confrontos unilaterais e amplia os riscos de conflitos regionais ou globais. Os EUA não disfarçam a intenção de recuperar sua economia e hegemonia por meio do controle de recursos da América do Sul, como minerais críticos (lítio e terras raras), além de recursos agrícolas e energéticos, recompensando aliados alinhados e punindo aqueles que buscam diversificação comercial.
O ponto de inflexão dessa nova era foi a operação militar contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, acusados de “narco-terrorismo”. Essa ação unilateral, sem autorização do Congresso ou aval internacional, exemplifica a aplicação prática da nova doutrina americana: o uso da força para remover líderes indesejados e impor uma estabilidade alinhada aos interesses americanos, abrindo caminho para intervenções semelhantes em outros países da região que resistam à exclusividade hemisférica dos EUA.
Em resumo, essa estratégia representa um retrocesso ao imperialismo do século XIX, priorizando o lema “América Primeiro” às custas da soberania latino-americana. Para o Brasil, maior economia da região, ela configura uma ameaça direta à sua autonomia estratégica e ao modelo de desenvolvimento baseado em parcerias multipolares e na independência política nacional.
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