Uma estranha tendência estética que tem predominado na arquitetura, no design de objetos e até na moda vem tornando o mundo cada vez mais descolorido e menos diverso. Não se trata de um movimento de inspiração diretamente política ou social, mas de uma manifestação cultural que reflete bem os valores da sociedade atual e sua pobreza estética, quase sempre justificada por interpretações distorcidas da modernidade e de suas correntes derivadas, como o minimalismo e a produção em massa em escala global.
A perda de cores no mundo social também reflete aspectos históricos e políticos, sem necessariamente estar vinculada a uma orientação ideológica específica. Ainda assim, pode-se observar que, no amplo espectro das lutas sociais, o impulso de descolorir o mundo guarda certa afinidade estética com regimes totalitários e ditatoriais, como a estética nazista, predominantemente monocromática e austera. Embora essa semelhança decorra da aplicação ideológica promovida pelos nazistas por meio de práticas de controle social, alienação cultural e experimentações semióticas, não existe formalmente qualquer ligação com a tendência atual, que reflete muito mais uma manifestação da cultura urbana pós-moderna do que qualquer herança direta do nazismo.
Isso explica, em parte, por que essas tendências se manifestam com maior intensidade em países ocidentais ligados a culturas eurocêntricas, enquanto encontram maior resistência na periferia do mundo — seja na África, na Ásia tropical ou entre comunidades nativas da América Latina.
O fato, no meu entender, é que esse movimento reflete o domínio de uma cultura predominante profundamente associada aos valores neoliberais do capitalismo industrial. Colorir o mundo significa diversificar, conviver com as diferenças, participar e não ser apenas mais um subtom em meio a uma escala numérica impessoal. Sob esse aspecto, a predominância do cinza e do preto revela um dos mais profundos empobrecimentos estéticos e culturais da humanidade contemporânea, uma espécie de releitura modernista do gótico tardio, evocando o trabalho do extraordinário desenhista Bob Kane e do escritor Bill Finger na criação de Batman e de sua Gotham City.
Reflete também a crescente transferência do ato criativo para algoritmos de inteligência artificial e para programas como o AutoCAD, amplamente utilizados por arquitetos. Trata-se de um movimento silencioso e melancólico, próprio da lógica da eficiência e da padronização do capitalismo neoliberal, em que uniformidade, regras rígidas e repetição geram escala, reduzem custos e maximizam faturamentos e resultados nos mercados financeiros.

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