O mar ainda está de pijama, aquele azul-ferrete meio chumbo que só quem acorda cedo tem o privilégio de ver. Em frente à minha varanda, o Cristo de concreto faz o seu aceno eterno, braços abertos como quem diz: “Bom dia, preguiçoso, já estou no posto faz tempo.”
Mal termino de esfregar os olhos, eis que uma flechinha preta vem em minha direção, velocidade de doido, quase kamikaze. É a dona Maria José da barriga branca (sim, eu batizo as andorinhas; fica mais fácil brigar quando elas sujam o parapeito). Passa a dois dedos da minha testa e solta um pio de censura: “Respeita a distância de segurança, seu bisbilhoteiro!”
Pronto. O dia começou direito.
Vou para a varanda com a caneca de café que sempre esfria antes da hora. Já sei o roteiro de cor: lá vêm elas, a patota voadora do Cristo, pontual como relógio suíço.
Primeiro, o reconhecimento do território: três voltas rápidas em torno da cabeça do Redentor, um giro apertado que parece beijo de casal e, depois, em fila indiana, rumam para o beiral do meu telhado. Estacionam, cumprimentam e logo depois retornam aos céus. É o nosso ritual de amanhecer, mais sagrado que missa de padre moderno.
Eu e elas nos entendemos bem. Quando me mudei para este apartamento na ponta da praia, herdei alguns ninhos prontos e um contrato verbal: eu forneço o teto, elas fornecem o espetáculo. Aceitei na hora. Desde então, dividimos o mesmo endereço, o mesmo nascer do sol, a mesma brisa salgada.
Tem a dona Maria José (da barriga branca, a brava da foto) excelente esposa e mãe; além de brava, é ciumenta, seu marido José Carlos (barriga azul), fiel, elegante, sempre de asas bem postas, e a turma dos filhos, que muda todo ano: dos buguelos com poucas penas até os adolescentes barulhentos que parecem estar sempre de férias.
Quando o céu já está em degradê de chumbo a laranja, começa a aula prática. Os filhotes, penugem desgrenhada e coragem de sobra, sobem no beiral como meninos de chinelo na beirada da piscina. Um ventinho maroto sopra, e lá vai o primeiro: cambalhota, grito, asa aberta em cruz, cara de pânico misturado com riso. Parece que vejo eu mesmo tentando andar de bicicleta sem rodinha. A mãe pia baixinho, incentivando; o pai demonstra um looping perfeito, daqueles de tirar o fôlego, só para mostrar que é moleza. Cai, levanta, tenta de novo. O céu é grande, mas é deles.
Eu fico ali, café esquecido, coração derretido. Porque, olha, fidelidade conjugal em tempos de aplicativo de encontro é artigo raro. Pois essas duas asinhas pretas ensinam lição todo santo dia: revezam a caça aos mosquitos, entregam a comidinha na boca com pontualidade britânica, defendem o ninho com fúria de leoa. Nunca vi o José Carlos chegar tarde, nunca vi a Maria José reclamar que “hoje não é minha vez”. Casamento de andorinha é para sempre ou, pelo menos, até o último voo.
Quando o sol finalmente resolve aparecer (às vezes atrasado, escondido atrás de uma nuvem, mandando só a luz como quem diz “vou de home office hoje”), o bando levanta de novo. Rodopiam sobre o mar, recortam o horizonte, brincam de pega-pega com o vento. Vão longe, mas voltam. Sempre voltam. Porque amor de verdade tem endereço certo e o delas, graças a Deus, continua sendo o beiral da minha casa.
Eu, que nunca aprendi a voar de verdade, voo com elas nas asas dos meus sonhos. E todos os dias, quando o Cristo abre os braços e o mar acorda, agradeço em silêncio por essa vizinhança alada que me ensina o que é ter casa, ter par, ter filho e, ainda assim, saber exatamente para onde o coração aponta quando o dia termina.

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