Você se lembra em quem votou para o Legislativo estadual na última eleição?
A pergunta, simples à primeira vista, carrega uma profundidade inquietante. Em geral, lembramos com facilidade do voto majoritário, do candidato ao Executivo, mas tropeçamos na memória quando o assunto é o Legislativo. E esse esquecimento não é casual: ele revela o modo como, muitas vezes, tratamos o voto proporcional como algo secundário, quase automático, quando na verdade ele define os rumos reais do poder.
Foi uma escolha consciente? Nasceu do pertencimento à sua cidade ou região? Da história, da trajetória pública, do legado construído? Ou foi fruto de uma indicação ligeira, de um nome que “estava na moda”, repetido à exaustão em grupos de WhatsApp, embalado por slogans bem produzidos e promessas fáceis?
Falo aqui não apenas como cidadão, mas como publicitário e estrategista de marketing político. Alguém que conhece os bastidores da comunicação eleitoral, os gatilhos emocionais, as narrativas cuidadosamente desenhadas para seduzir, simplificar e, muitas vezes, substituir o pensamento crítico. E é justamente por conhecer esse universo que afirmo: marketing apresenta, mas não pode decidir por você.
O voto é um ato de responsabilidade individual com impacto coletivo. É um compromisso íntimo com a própria consciência. Não existe voto neutro, tampouco inocente. Cada escolha reflete aquilo que aceitamos, legitimamos e projetamos como futuro possível.
Vivemos um tempo politicamente sensível, em que a superficialidade tenta se impor à reflexão e a polarização busca ocupar o espaço do diálogo. Nesse cenário, surgem os “paraquedistas eleitorais”: candidatos sem vínculo real com a cidade, sem vivência local, sem história compartilhada com o território que desejam representar. São projetos pessoais travestidos de projetos públicos.
É preciso dizer com clareza: representatividade não se improvisa em campanha. Essência, pertencimento e compromisso se constroem no tempo, na convivência, na presença concreta. Quem não conhece o chão que pisa dificilmente compreenderá as dores, urgências e potências de um povo.
Valeu a pena o voto de confiança que você emprestou na eleição passada?
Essa pergunta não deve gerar culpa, mas aprendizado. Democracias maduras se constroem com revisão crítica, não com idolatrias. Não podemos permitir que políticos nos doutrinem ou nos tratem como massa de manobra. Somos maiores do que isso. Somos cidadãos capazes de pensar, escolher e cobrar.
Antes das próximas eleições, proponho um gesto simples e poderoso: pesquise. Dê um Google. Conheça a trajetória do candidato, sua atuação fora do período eleitoral, suas conexões reais com a cidade, o que defendeu quando não havia holofotes. Observe menos o discurso e mais a coerência entre passado, presente e prática.
No marketing falamos muito em missão, visão e estratégia. Talvez seja hora de aplicar esses conceitos ao exercício do voto.
Missão de votar com consciência. Visão de futuro coletivo. Estratégia baseada em conhecimento, empatia e responsabilidade.
Porque o voto não se encerra na urna.
Ele começa na consciência e ecoa na história.
Hélio Ricardo

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