O tempo passa.
Passa depressa, silencioso, quase sem pedir licença. E, quando percebemos, aquilo que parecia eterno já ficou para trás. A antiga frase publicitária "o tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa”permaneceu viva na memória popular, mesmo depois de a própria marca deixar de existir. Eis uma ironia da vida: slogans conseguem atravessar décadas, enquanto muitas vezes nós, seres humanos, deixamos marcas cada vez mais breves na memória das pessoas.
Talvez seja justamente aí que nasce esta reflexão.
Em que ponto da vida estamos?
E, mais importante ainda: para onde realmente desejamos ir?
Vivemos cercados por opiniões, expectativas e influências externas. Todos os dias alguém tenta nos dizer quem somos, o que devemos fazer, como devemos agir, qual caminho seguir. Porém, existe um momento inevitável em que precisamos silenciar o barulho do lado de fora para ouvir a verdade que mora dentro de nós.
Olhar para dentro exige coragem.
Coragem para reconhecer nossas virtudes sem vaidade.
Coragem para admitir nossas falhas sem autodestruição.
Coragem para entender que evolução não acontece por aplausos externos, mas pelo encontro sincero com a própria consciência.
Recentemente, tenho vivido a experiência transformadora da terapia. E confesso: estar diante de uma psicóloga tão sensível e inteligente tem sido um privilégio.
Como é de praxe, eu falo muito mais do que escuto. Afinal, quem me conhece sabe que sou daqueles que falam pelos cotovelos.
Em uma das últimas sessões, movido pela curiosidade humana de querer se enxergar pelos olhos do outro, perguntei a ela:
— “Querida, fala alguma coisa sobre mim. Ainda nos conhecemos há pouco tempo, mas gostaria de saber qual visão você tem da minha pessoa como paciente.”
Ela sorriu.
E respondeu exatamente aquilo que, talvez no fundo, eu desejasse ouvir.
Foi uma sensação boa. Agradável. Daquelas que confortam a alma.
Mas, logo depois daquele instante de satisfação, nasceu em mim uma inquietação ainda mais profunda: será que a imagem que os outros têm de nós corresponde, de fato, àquilo que somos? Ou apenas ao reflexo do que conseguimos demonstrar?
Foi então que me vi diante de uma pergunta poderosa:
Em que ponto estou?
E para onde desejo chegar?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes da existência humana. Porque amadurecer não é apenas conquistar espaços; é compreender quem somos enquanto caminhamos. É perceber onde ainda precisamos melhorar. É reconhecer nossas limitações sem perder a esperança de superá-las.
Cada ser humano enxerga a vida a partir da própria experiência.
Como costuma dizer meu amigo Fábio Mantena:
“Cada ponto de vista é a vista de um ponto.”
E essa frase carrega uma sabedoria imensa.
Às vezes, estamos tão acelerados tentando vencer a vida, que esquecemos de respirar. Esquecemos de desacelerar o coração. Esquecemos de ouvir a alma.
Respirar profundamente, silenciar por alguns instantes e permitir-se esvaziar das tensões pode parecer algo simples, mas é um gesto profundamente humano. Quando respiramos com consciência, organizamos emoções, acalmamos pensamentos e reencontramos equilíbrio para continuar a caminhada.
Talvez o verdadeiro sucesso não esteja apenas no lugar onde queremos chegar, mas na consciência que desenvolvemos durante o percurso.
Porque destinos mudam.
Planos mudam.
As pessoas mudam.
Mas a essência… essa precisa permanecer viva.
No fim, a grande pergunta não é sobre o que o mundo pensa de nós. A grande pergunta é: conseguimos reconhecer, com honestidade, quem realmente somos quando estamos sozinhos diante do espelho da própria alma?
E, se a resposta ainda não estiver pronta, talvez tudo bem.
Afinal, viver também é aprender diariamente a se reconstruir.

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