O prefeito Valderico Luiz Reis Júnior protagonizou um episódio que remete aos tempos do coronel ACM, que governava a Bahia com a autoridade de um chicote nas mãos durante a ditadura militar.
Na quinta-feira, Valderico viajou a Brasília para assinar convênios com o governo federal, no âmbito do PAC, destinados a obras em Ilhéus. Uma foto sua ao lado do ministro Rui Costa e do presidente Lula rapidamente viralizou nas redes sociais, gerando todo tipo de especulação.
Curiosamente, Valderico optou por não compartilhar a imagem em seus perfis oficiais, tampouco fez menção ou agradeceu ao governo federal pelas obras. Em suas publicações sobre a viagem, chegou a sugerir que os projetos seriam conquistas de sua gestão, omitindo que se tratam de iniciativas planejadas há quase três anos, em resposta às enchentes de 2021, e cadastradas no PAC Seleções.
O papel da prefeitura limitou-se a preencher um cadastro — nada além disso.
O episódio, no entanto, ganhou novos contornos. Na sexta-feira, Valderico voou para Salvador, onde, em um gesto que ecoa o antigo ritual de “beija-mão” dos tempos do Império e da Bahia de ACM, encontrou-se com ACM Neto para justificar sua aparição ao lado de Lula e Rui. A reunião, que deveria ser discreta, foi amplamente divulgada pelo próprio prefeito em um vídeo publicado nas redes sociais.
Na gravação, Valderico explica, com humildade, ao “coronelzinho” que sua presença em Brasília foi apenas para cumprir um “dever republicano” de assinar convênios.
Em um tom claramente ensaiado, o vídeo parece ter o objetivo de reafirmar aos eleitores baianos que, em meio à grande debandada de prefeitos que abandonam ACM Neto para apoiar Jerônimo, Valderico permanece fiel ao ex-prefeito de Salvador — mais leal, talvez, do que o próprio Neto, que ainda não confirmou sua candidatura.
Como parte da encenação, ACM Neto endossa as palavras de Valderico, afirmando que o papel de um prefeito é buscar parcerias com todas as esferas de governo. Trata-se de um discurso que soa republicano, mas que não consegue ocultar a submissão explícita. Esse gesto compromete a imagem de um governante de uma cidade tão relevante quanto Ilhéus, que, ao se curvar a um projeto político incerto, coloca o futuro da população em segundo plano, atrelando-se a alguém que ainda não definiu seu próprio destino e que nada pode oferecer a Ilhéus.
Não que o prefeito precise mudar de lado para conseguir obras; este episódio já prova isso. Ilhéus obteve mais recursos neste PAC do que outras cidades de porte semelhante, governadas por prefeitos ligados ao PT. O que falta é estabelecer diálogo, construir uma agenda de trabalho e abandonar o receio de desagradar o “coronelzinho”. Afinal, Ilhéus consolidou-se como um polo estratégico mundial, sendo a porta de entrada e saída da futura ferrovia bioceânica — a obra mais relevante para a logística e a geopolítica global nos próximos anos.
É preciso que o prefeito se sente à mesa com os governos, representando com altivez e dignidade uma cidade poderosa, com cinco séculos de história e um futuro promissor como centro logístico de alcance mundial. Cabe a ele trazer grandes obras que preparem Ilhéus para essa nova realidade, em vez de submeter-se a picuinhas menores de um político que, por vaidade, se julga herdeiro do governo da Bahia.
Trata-se de pura presunção, que já levou a sucessivas derrotas — e não será diferente em 2026.

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