A movimentação política em torno da pré-candidatura de Igor Dominguez à Assembleia Legislativa da Bahia acendeu um alerta em Ilhéus e não exatamente um alerta de esperança. Pelo contrário. Para muitos, o anúncio soa como mais um capítulo melancólico de um grupo político que parece ter perdido a conexão com a realidade das ruas, com o sentimento popular e, principalmente, com a grandeza histórica de Ilhéus.
É impossível ignorar o simbolismo desse movimento. Uma cidade com tradição política forte, lideranças históricas, identidade própria e papel estratégico no sul da Bahia agora assiste a um grupo optar por apostar em um nome ainda pouco conhecido pelo grande eleitorado, enquanto figuras tradicionais permanecem concentradas nos espaços do Executivo, preservando cargos, influência e conveniências.
A pergunta surge de forma inevitável: o Partido Progressista não possui, em seus próprios quadros em Ilhéus, nenhuma liderança raiz, autêntica e consolidada para representar a cidade?
Se essa é, de fato, a melhor construção apresentada ao povo ilheense, talvez o problema seja mais profundo do que aparenta.
A política deixou de ser missão para se transformar em mera administração de interesses internos. E quando um grupo político passa mais tempo dividindo espaços de poder do que construindo sonhos coletivos, inevitavelmente perde a capacidade de inspirar. O eleitor percebe. O povo sente.
O mais preocupante não é apenas o lançamento de um pré-candidato. O que chama atenção é a ausência de uma identidade política verdadeira nesse processo. Falta firmeza. Falta propósito. Falta coragem para defender um projeto genuinamente ilheense.
Enquanto outras cidades avançam pensando o futuro, Ilhéus continua presa a um jogo pequeno, limitado e quase burocrático, onde alguns ainda acreditam que política se resume a régua, compasso e acordos de bastidores como se o povo não tivesse despertado, como se autenticidade não tivesse valor.
Mas tem. E muito.
O eleitor de hoje já não aceita com facilidade candidaturas fabricadas em reuniões fechadas. A sociedade mudou. As redes sociais mudaram. O sentimento popular mudou. O povo quer verdade, presença, história, compromisso e identidade com a cidade.
Talvez por isso tanta gente tenha reagido com espanto ao anúncio do apoio de figuras tradicionais a um nome ainda sem raízes políticas profundas em Ilhéus. Não pela pessoa de Igor Dominguez em si, mas pelo simbolismo da escolha.
Porque a sensação transmitida é dura: abandonaram a construção de lideranças locais autênticas para preservar estruturas de poder.
E isso enfraquece Ilhéus.
Uma cidade do tamanho político, econômico, cultural e histórico de Ilhéus não pode viver eternamente dependente de improvisos eleitorais ou de projetos desenhados apenas para a manutenção de grupos. Ilhéus precisa voltar a ser protagonista da própria história.
O tempo também começa a cobrar coerência de seus personagens.
Jabes Ribeiro, figura histórica da política regional, conhece como poucos o peso da liderança e da responsabilidade pública.
Justamente por isso, parte da população esperava algo maior, mais sólido, mais conectado ao sentimento popular e à necessidade de uma renovação verdadeira.
Porque renovação não é apenas trocar nomes.
Renovação é mudar postura.
É reconstruir confiança.
É devolver esperança.
Quando um grupo político perde a capacidade de formar líderes autênticos dentro da própria cidade, talvez esteja diante de uma crise mais séria do que imagina: a crise da própria identidade.
E identidade política não se sustenta apenas com articulação.
Precisa de alma.
Precisa de povo.
Precisa de verdade.

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