Há uma inquietação que atravessa o tempo e insiste em permanecer atual: os políticos e candidatos de hoje são diferentes daqueles de uma década atrás? Ou apenas aprenderam a se adaptar a novas ferramentas, mantendo velhas práticas?
Voltar no tempo ajuda a compreender o presente. Há dez, vinte, trinta anos, as campanhas eleitorais tinham outro ritmo. Eram mais artesanais, mais próximas, menos mediadas por algoritmos. A construção da imagem de um candidato dependia do corpo a corpo, da conversa olho no olho, da presença física nos bairros, nas feiras, nas associações. Havia, claro, estratégias sempre houve, mas elas se apoiavam muito mais na criatividade humana do que na tecnologia.
Em 1996, quando comecei a fazer campanha ao lado do meu amigo inseparável Abimael Moura, o conhecido Christian Poul, criávamos peças simples, porém carregadas de intenção e identidade. O conteúdo era didático, estratégico, mas também leve e bem-humorado. Havia liberdade artística, havia prazer no processo. Cada passo era construído com sentido, e não apenas com cálculo.
Hoje, o cenário é outro. A informação circula em velocidade quase instantânea. Se, por um lado, isso amplia o acesso ao conhecimento e fortalece o eleitor, por outro, abre espaço para a desinformação, para narrativas manipuladas e para verdades fragmentadas. O marketing político evoluiu: incorporou inteligência artificial, redes sociais, veículos independentes e ferramentas sofisticadas de segmentação. Nunca se soube tanto e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil separar o que é autêntico do que é encenação.
Mas o ponto central não está apenas nas ferramentas. Está na performance dos candidatos.
Ser comunicativo, bem-humorado e extrovertido pode ser uma virtude. A política também exige empatia e capacidade de conexão. O problema começa quando essa performance se transforma em teatro vazio. Quando o candidato entra na casa do eleitor como se fosse íntimo, sem jamais ter construído qualquer relação real com aquela família, com aquele bairro, com aquela história.
Multiplicam-se gestos ensaiados: abraços sem calor, promessas individualizadas sem compromisso coletivo, discursos moldados para agradar a todos e, no fim, não atender a ninguém. Há uma estética de proximidade que, muitas vezes, esconde uma profunda distância.
E tudo isso passa rápido. Rápido demais. O ciclo eleitoral comprime o tempo, acelera as narrativas e, quando chega o primeiro domingo de outubro, muitas dessas construções se desfazem como se nunca tivessem existido.
Ainda assim, nem tudo é aparência. Ao redor, há nomes que carregam história, trajetória, coerência. Pessoas que conhecem as dificuldades porque as viveram. Outras que, mesmo vindas de contextos privilegiados, foram educadas para compreender o valor do serviço público e da responsabilidade coletiva.
O desafio está no olhar do eleitor.
Escolher deixou de ser apenas um ato emocional; tornou-se um exercício de observação criteriosa. É preciso ir além da performance, investigar o histórico, analisar atitudes, confrontar discursos com práticas. Em um ambiente saturado de informação e de encenação, discernimento é ferramenta essencial.
Vivemos um tempo curioso: há muitos “personagens” em circulação e, ironicamente, pouco espaço para a autenticidade. Surgem figuras que parecem mais preocupadas com a encenação do que com o conteúdo, mais próximas do entretenimento do que do compromisso público.
O alerta é necessário.
A escolha política não termina na urna. Ela reverbera no cotidiano, nas políticas públicas, nas oportunidades ou na ausência delas. Ao final, não somos apenas espectadores das decisões tomadas: somos, em alguma medida, corresponsáveis por elas.
Por isso, mais do que nunca, escolher bem é um ato de consciência.
E, sobretudo, de responsabilidade coletiva.

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