Existe um acordo não escrito na política brasileira que todo mundo conhece, mas poucos admitem: o poder, quando compartilhado no papel, raramente é dividido na prática.
A figura do vice nasce de uma lógica simples garantir continuidade e estabilidade. Afinal, em qualquer estrutura minimamente organizada, alguém precisa estar preparado para assumir o comando em caso de ausência ou crise. No Brasil, essa função é clara: substituir o titular quando necessário e, em tese, colaborar com a gestão.
Mas a política real não vive de teoria. Vive de cálculo.
E é justamente nesse ponto que o cargo de vice se transforma em um dos maiores paradoxos da gestão pública: uma posição com legitimidade eleitoral, visibilidade pública e, ainda assim, frequentemente esvaziada de poder real.
Não por acaso.
O vice é, antes de tudo, uma solução eleitoral. Ele amplia alianças, agrega votos, conecta grupos distintos e ajuda a construir a narrativa da campanha. Cumpre um papel estratégico fundamental na vitória. O problema começa depois da posse. Porque, uma vez eleito, esse mesmo capital político passa a ser visto como risco.
Risco de protagonismo.Risco de divergência.Risco de sucessão.
E, diante do risco, entra em cena o instinto mais antigo da política: o controle.
Sem atribuições definidas de forma rígida pela legislação que, em geral, permite apenas que o vice “auxilie quando convocado” ou receba funções por delegação o cargo fica à mercê da vontade de quem ocupa o topo. Se há confiança, o vice atua.Se não há, ele observa.
E observar, nesse caso, não é um verbo neutro. É um processo de invisibilização.
O resultado é uma figura institucionalmente presente, mas operacionalmente ausente. Um agente político que poderia contribuir com articulação, execução e gestão, mas que muitas vezes é mantido fora das decisões centrais. Como um jogador em campo que corre, se posiciona, mas nunca recebe a bola.
A pergunta que fica não é sobre indivíduos. É sobre o modelo.
Por que ainda aceitamos uma estrutura que depende exclusivamente da boa vontade para funcionar? Por que elegemos duas lideranças para o Executivo se, na prática, apenas uma governa? E mais: que tipo de gestão abre mão, deliberadamente, de dividir responsabilidades em um ambiente que exige cada vez mais eficiência?
A resposta pode ser desconfortável, mas necessária: o sistema, como está desenhado, incentiva a concentração.
Sem obrigação institucional de delegação, o poder tende a se fechar. E quando isso acontece, perde-se mais do que a participação de um vice perde-se diversidade de pensamento, capacidade de execução e, principalmente, equilíbrio político dentro da própria gestão.
Não se trata de defender protagonismo forçado. Trata-se de reconhecer desperdício.
Desperdício de voto.Desperdício de talento.Desperdício de oportunidade administrativa.
Talvez esteja na hora de encarar o óbvio: enquanto o papel do vice continuar sendo opcional na prática, ele seguirá sendo tratado como acessório útil na campanha, dispensável no governo.
E nenhuma estrutura que trata parte do seu próprio comando como figurante pode se dizer, de fato, eficiente.

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