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Domingo, 12 de Abril de 2026
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Política

O SÓCIO INVISÍVEL: COMO O SISTEMA DEVORA O SALÁRIO E BENEFICIA O GOVERNO

Coluna Vinícius Brandão

Vinícius Brandão
Por Vinícius Brandão
O SÓCIO INVISÍVEL: COMO O SISTEMA DEVORA O SALÁRIO E BENEFICIA O GOVERNO
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O SÓCIO INVISÍVEL: COMO O SISTEMA DEVORA O SALÁRIO DO BRASILEIRO, REDUZ O PODER DE COMPRA E TRANSFORMA O GOVERNO NO MAIOR BENEFICIADO DA RENDA DE QUEM PRODUZ
 
Existe uma narrativa muito repetida no Brasil, quase sempre dita com ares de verdade absoluta, como se bastasse apontar o dedo para resolver um problema histórico. É a narrativa de que o trabalhador ganha pouco porque o empresário paga pouco. Parece uma explicação fácil, rápida, emocionalmente atraente e politicamente útil. Afinal, toda narrativa precisa de um vilão visível, de preferência alguém que tenha rosto, CNPJ, porta comercial aberta e responsabilidade direta sobre a folha do fim do mês. O problema é que, quando se abre a matemática real que existe entre o custo de um emprego e o que de fato sobra na mão de quem trabalha, o debate muda de figura. E muda muito.
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A realidade é mais profunda, mais técnica e mais incômoda do que o discurso simplista costuma admitir. O empresário, em muitos casos, não é o grande beneficiado dessa conta. O trabalhador, certamente, não é. Quem aparece como o maior vencedor, silencioso, permanente e estrutural, é o Estado brasileiro, por meio de um sistema tributário pesado, cumulativo, confuso e socialmente perverso, que captura renda em todas as etapas do caminho. Antes do salário nascer, durante o pagamento da folha, na hora em que o trabalhador recebe, e novamente quando ele tenta usar esse dinheiro para sobreviver.
 
É por isso que tanta gente olha para o próprio salário e sente que trabalha demais para viver de menos. Não se trata apenas de sensação. Em grande medida, trata se de matemática.
 
O PROBLEMA NÃO ESTÁ APENAS NO SALÁRIO. ESTÁ NO CAMINHO QUE O DINHEIRO PERCORRE
Para compreender o que realmente corrói o poder de compra do brasileiro, é preciso parar de olhar apenas para o contracheque e começar a observar toda a jornada do dinheiro. O salário que o trabalhador imagina receber não é o mesmo salário que a empresa paga. E o salário que a empresa paga não é o mesmo que chega à conta do funcionário. E o salário que chega à conta do funcionário também não é o mesmo que ele consegue transformar em comida, combustível, escola, saúde, transporte e dignidade.
 
A cada etapa dessa trajetória existe uma captura. A cada fase existe uma incidência. A cada uso do dinheiro existe um novo desconto, ainda que escondido dentro do preço dos produtos. Essa é a engrenagem central do problema brasileiro.
 
O debate público, porém, quase nunca explica isso com honestidade. Prefere reduzir o assunto a slogans, a frases de palanque e a narrativas de conflito entre empregado e empregador, como se os dois fossem adversários naturais. Não são. Muitas vezes ambos estão do mesmo lado da mesa, sendo espremidos por um sistema que arrecada muito, entrega mal e ainda convence a sociedade de que o culpado é sempre o outro que produz.
 
A ILUSÃO DO SALÁRIO DE QUATRO MIL REAIS
Vamos ao exemplo concreto que ajuda a visualizar o problema.
 
Imagine um trabalhador contratado com salário bruto de R$ 4.000. Para muita gente, esse é o número central da discussão. É ele que aparece no holerite, é ele que entra no debate político, é ele que costuma ser usado como referência para dizer se alguém ganha bem ou ganha mal. Mas esse número, isolado, é enganoso. Porque o salário bruto não representa o custo real para a empresa, nem o valor líquido na mão do trabalhador, nem o poder real de compra que esse dinheiro terá depois.
 
Para que um colaborador tenha um salário bruto de R$ 4.000, o custo total para a empresa pode girar em torno de R$ 6.680 por mês. Esse é o primeiro choque de realidade que grande parte da população não vê. A empresa não desembolsa apenas os R$ 4.000 do salário nominal. Ela desembolsa muito mais.
 
Essa diferença não vai integralmente para o bolso do patrão, como muitas narrativas insinuam. Ela é absorvida por um conjunto de encargos e obrigações legais que compõem o custo do emprego formal no Brasil.
 
O QUE COMPÕE O CUSTO REAL DE UM FUNCIONÁRIO
Quando a empresa contrata formalmente um trabalhador, ela passa a arcar com uma série de custos obrigatórios. Entre eles está o INSS patronal, que gira em torno de vinte por cento da folha. Sobre um salário de R$ 4.000, isso representa aproximadamente R$ 800.
 
Há também o FGTS, com alíquota de oito por cento, o que acrescenta R$ 320.
Entram ainda as contribuições para terceiros, que incluem Sistema S e outros encargos parafiscais, aproximando se de R$ 232.
 
Some se a isso o RAT, ligado ao risco ambiental do trabalho, que pode variar conforme a atividade econômica, mas que em um cenário básico pode representar algo como R$ 40.
 
E há ainda um item que muitos leigos não percebem, mas que o empresário precisa provisionar o ano todo: férias, um terço constitucional de férias e décimo terceiro salário. Essas provisões não aparecem como imposto no sentido clássico, mas são custo obrigatório do vínculo empregatício e afetam diretamente o custo real da mão de obra. Nesse exemplo, podem representar cerca de R$ 1.120.
 
Quando se soma salário, encargos e provisões, chega se a uma faixa próxima de R$ 6.512 a R$ 6.680. Ou seja, para gerar formalmente um salário de R$ 4.000, a empresa desembolsa quase R$ 7.000.
 
Esse ponto precisa ser entendido com clareza por qualquer pessoa séria que queira debater salário, emprego e poder de compra no Brasil. O custo do emprego formal não se resume ao salário nominal. Há uma distância grande entre o que custa empregar e o que efetivamente remunera o trabalhador.
 
O TRABALHADOR TAMBÉM NÃO RECEBE OS QUATRO MIL
Se a conta já seria pesada do ponto de vista empresarial, ela ainda está longe de terminar. Porque os R$ 4.000 do salário bruto não chegam integralmente à conta do funcionário.
 
Sobre esse valor incidem descontos obrigatórios, principalmente INSS do empregado e Imposto de Renda, conforme a faixa e a tabela vigente. No exemplo sintetizado no vídeo e nas contas discutidas, o trabalhador recebe algo em torno de R$ 3.294 líquidos.
 
Aqui está o segundo ponto central da reflexão. A empresa pode estar pagando perto de R$ 6.680. O trabalhador pode estar vendo no papel um salário de R$ 4.000. Mas o que realmente cai na conta dele é algo próximo de R$ 3.294.
Nesse momento, antes mesmo de ele comprar um pão, abastecer o carro, pagar a escola da criança ou quitar a conta de luz, o sistema já capturou uma parte expressiva do valor movimentado em torno daquele posto de trabalho.
 
A TRIBUTAÇÃO NÃO TERMINA QUANDO O SALÁRIO CAI NA CONTA
Muita gente imagina que o problema acaba aí. Não acaba. Na verdade, a face mais cruel da tributação brasileira começa justamente depois que o trabalhador recebe.
 
É aí que entra o peso dos tributos indiretos, aqueles que não aparecem destacados com clareza para o consumidor comum, mas que estão embutidos no preço de quase tudo: alimentos, eletricidade, água, telefonia, combustíveis, serviços, remédios, materiais escolares e assim por diante.
 
É isso que faz do sistema brasileiro um modelo especialmente perverso para as classes média e trabalhadora. O dinheiro já foi tributado na origem e volta a ser tributado no uso. O custo do trabalho já foi onerado para quem emprega, o salário já foi reduzido para quem recebe, e o consumo ainda será mordido toda vez que esse trabalhador tenta viver.
 
O IMPOSTO ESCONDIDO NA PRATELEIRA
Vamos pegar exatamente os exemplos trazidos no raciocínio que você construiu, porque eles ajudam o leitor leigo a enxergar o que normalmente fica invisível.
Se esse trabalhador, já com salário líquido aproximado de R$ 3.294, vai ao mercado e gasta R$ 1.000, estima se que cerca de R$ 250 estejam embutidos ali em forma de tributos. Não é um valor que ele entrega no caixa com a etiqueta escrita imposto, mas está dentro do preço final.
 
Se paga uma conta de luz de R$ 350, pode haver cerca de R$ 87,50 de carga tributária embutida.
 
Se paga R$ 200 de água, algo como R$ 30 podem corresponder a incidências indiretas.
 
Se paga plano de saúde, escola particular, combustível e telefonia, continua devolvendo dinheiro ao Estado por meio de tributos embutidos nos preços.
No exemplo transcrito, o cálculo foi feito assim: mercado, R$ 250 em tributos; luz, R$ 87,50; água, R$ 30; plano de saúde, R$ 75; escola, R$ 60; gasolina, R$ 119; telefone, R$ 80. A soma disso chega a aproximadamente R$ 701 mensais de impostos indiretos.
 
Essa parte da conta é especialmente importante, porque ela mostra que o trabalhador não perde poder de compra apenas porque o salário líquido já chega menor. Ele perde de novo porque o pouco que resta vale menos do que parece.
 
O SALÁRIO NOMINAL E O SALÁRIO REAL SÃO DUAS COISAS DIFERENTES
É aqui que a discussão econômica precisa amadurecer. Uma coisa é o salário nominal, aquele número escrito no contrato ou no contracheque. Outra coisa é o salário real, que corresponde ao que o trabalhador consegue efetivamente comprar com esse dinheiro.
 
No Brasil, o salário nominal pode até parecer um número razoável no papel, mas o salário real encolhe rapidamente. E ele encolhe não apenas pela inflação, mas também pela estrutura de tributação em cascata que acompanha o dinheiro em todas as fases.
 
Isso ajuda a explicar por que tantas pessoas sentem que vivem correndo atrás da própria renda sem nunca alcançá la. O dinheiro não rende porque ele chega já reduzido e é novamente corroído no consumo.
 
A CONTA MENSAL QUE O DISCURSO POLÍTICO ESCONDE
Vamos juntar as partes para o leitor visualizar a cena inteira.
 
A empresa desembolsa aproximadamente R$ 6.680 para manter aquele emprego.
 
O trabalhador recebe líquido cerca de R$ 3.294.
 
Ao consumir itens básicos para viver, devolve algo em torno de R$ 701 ao governo em tributos embutidos.
 
Se considerarmos esse raciocínio, a parcela do valor total movimentado que efetivamente se transforma em consumo livre e vida real para o trabalhador cai muito. Em linguagem simples, o empresário banca o valor mais alto da conta, o trabalhador recebe muito menos do que custa, e o governo vai ficando com fatias sucessivas de praticamente tudo.
 
Esse é o núcleo da crítica. E é justamente por isso que jogar toda a culpa sobre o empregador, como se ele fosse o único responsável pela compressão salarial, é uma simplificação intelectualmente preguiçosa e economicamente falsa.
 
O GOVERNO COMO MAIOR BENEFICIADO DA CADEIA
O ponto mais explosivo, e também mais difícil de ser aceito por quem se acostumou a narrativas ideológicas, é que o governo aparece como grande beneficiado dessa estrutura.
 
Não porque ele produza mais riqueza do que a empresa.
 
Não porque ele trabalhe mais do que o empregado.
 
Não porque ele assuma o risco da operação, da folha, do investimento, da inadimplência, do aluguel, da energia, da sazonalidade ou da crise.
 
Mas porque construiu, ao longo de décadas, um sistema em que arrecada na contratação, arrecada no salário, arrecada no consumo, arrecada nos serviços e arrecada até na circulação do que já foi antes tributado.
 
Em vez de atuar como regulador equilibrado e provedor eficiente de serviços públicos essenciais, o Estado brasileiro tornou se um participante pesado da renda privada, um sócio compulsório que entra em todos os contratos, mas quase sempre sem o mesmo nível de eficiência, transparência e retorno que exige da iniciativa privada.
 
QUANDO A CONTA É PROJETADA PARA UMA VIDA INTEIRA, O CHOQUE AUMENTA
O raciocínio do vídeo e das imagens ganha ainda mais força quando se projeta essa mesma lógica ao longo dos anos.
 
Em um ano, o custo total daquele emprego chega a aproximadamente R$ 80.160. Pelas contas apresentadas, o governo fica com algo perto de R$ 49.044, enquanto o trabalhador fica com cerca de R$ 31.116.
 
Em dez anos, o empresário terá desembolsado aproximadamente R$ 801.600. O governo, dentro da lógica somada de encargos e tributos incidentes, absorveria cerca de R$ 490.440. O trabalhador ficaria com R$ 311.160.
 
Em vinte anos, a conta alcança R$ 1.603.200 pagos pelo empregador, com cerca de R$ 980.880 apropriados pelo Estado e R$ 622.320 ficando com o trabalhador.
Em trinta anos, a projeção discutida chega a R$ 2.404.800 pagos pelo empresário. Desse total, o governo ficaria com aproximadamente R$ 1.471.320, enquanto o trabalhador ficaria com cerca de R$ 933.480.
 
Esses números, ainda que sintetizados e didáticos, cumprem um papel fundamental: escancaram a desproporção estrutural entre quem banca, quem trabalha e quem recolhe.
 
O VERDADEIRO VILÃO DO BAIXO PODER DE COMPRA
É claro que existem maus empresários, assim como existem maus gestores públicos e maus trabalhadores. Mas uma análise séria não pode ser feita com base em caricaturas humanas. Ela precisa olhar para a engrenagem.
 
E a engrenagem brasileira mostra algo muito claro: o baixo poder de compra do trabalhador não nasce apenas da vontade do empregador. Ele é resultado de uma arquitetura econômica e tributária que encarece o emprego formal, desidrata o salário líquido e esmaga o consumo.
 
O trabalhador não recebe pouco apenas porque alguém quis pagar pouco. Muitas vezes ele recebe menos do que poderia porque há uma estrutura enorme entre o custo do trabalho e a renda disponível. Uma estrutura que suga produtividade, desestimula formalização, encarece contratação e pune quem quer subir na vida pelo próprio esforço.
 
O DISCURSO DA LUTA DE CLASSES ESCONDE O MECANISMO REAL
Ao longo dos últimos vinte anos, consolidou se no Brasil uma retórica muito eficiente politicamente: a de colocar trabalhador e empresário em permanente estado de confronto, como se um dependesse do fracasso do outro para sobreviver.
 
Essa retórica tem utilidade eleitoral, mas baixa utilidade explicativa.
Quando o trabalhador passa a acreditar que o empresário é automaticamente o inimigo, ele deixa de perceber que muitas vezes o empresário também está esmagado por um sistema de tributos, obrigações, burocracia e custos que reduzem sua capacidade de contratar, de investir, de aumentar salários e de crescer.
 
Quando o empresário, por sua vez, passa a tratar o trabalhador apenas como custo, sem perceber o peso real da perda de poder de compra na vida concreta de quem recebe, também ajuda a empobrecer o debate.
O conflito interessa ao sistema porque distrai do verdadeiro centro da conta.
 
A ARMADILHA DA DEPENDÊNCIA ESTATAL
Mas há um segundo ponto, ainda mais sensível, que precisa ser enfrentado com coragem. Não basta falar apenas de tributação. É preciso falar do destino político dessa arrecadação e do modelo de sociedade que ela vem financiando.
A assistência social, em sua essência, deveria funcionar como instrumento temporário de proteção, ponte emergencial para que pessoas em situação grave pudessem reorganizar a vida, sobreviver ao momento crítico e retornar à autonomia produtiva. Essa é a lógica saudável de uma política social bem desenhada.
 
O problema começa quando o auxílio deixa de ser ponte e passa a ser permanência. Quando a exceção vira regra. Quando a transferência de renda, em vez de aliviar emergencialmente a pobreza, torna se base estrutural de manutenção de populações inteiras sem horizonte claro de emancipação econômica.
 
Em algumas regiões do país, a circulação de recursos públicos por meio de benefícios assistenciais passou a sustentar parte relevante da economia local. Há municípios em que o dinheiro que gira vem mais da transferência do Estado do que da produção, do empreendedorismo, da indústria, do comércio competitivo ou da geração de valor real.
 
Esse fenômeno precisa ser debatido com honestidade, porque ele produz distorções profundas. Uma delas é o desestímulo à formalização em certos contextos. Há famílias que resistem a vínculos formais de trabalho, ou evitam registro, por medo de perder benefícios. Em alguns casos, a renda do auxílio, combinada com pequenos ganhos informais, passa a parecer mais segura do que entrar no mercado formal e ser esmagado pela mesma estrutura que tributa salário, consumo e atividade econômica.
 
Não se trata de atacar os pobres. Trata se de denunciar um modelo que administra a pobreza sem resolver suas causas, e que transforma dependência em ativo político.
 
O CICLO QUE EMPOBRECE E DEPOIS SE APRESENTA COMO SALVAÇÃO
A perversidade maior desse sistema está justamente no ciclo que ele cria.
 
Primeiro, o Estado tributa pesadamente quem emprega.
 
Depois, tributa o salário de quem trabalha.
 
Em seguida, tributa de novo quando esse trabalhador consome.
Com isso, o poder de compra diminui, o custo de vida sobe e a sensação de sufocamento econômico se espalha.
 
Diante dessa população estrangulada, o próprio Estado reaparece como salvador, oferecendo programas de transferência de renda, benefícios e auxílios que aliviam a emergência, mas não rompem a lógica que a produziu.
Para financiar esses mesmos programas e a própria máquina pública, aumenta se ou mantém se a pressão tributária.
 
O resultado é um círculo vicioso. O sistema aperta, empobrece, assiste, fideliza e recomeça.
 
NÃO SE TRATA DE NEGAR A IMPORTÂNCIA DA PROTEÇÃO SOCIAL
É importante dizer isso com clareza para que o debate não seja infantilizado.
 
Nenhuma sociedade séria abandona completamente seus vulneráveis.
 
Programas sociais podem ser necessários, legítimos e moralmente justificados em muitos contextos. O problema não é a existência de proteção social. O problema é a transformação da proteção em dependência crônica e da assistência em modelo permanente de governança.
 
Quando o Estado arrecada demais, entrega de menos, dificulta o emprego formal, encarece o custo da vida e depois usa parte da própria arrecadação para administrar a miséria que ajudou a ampliar, ele deixa de ser solução plena e passa a ser parte central do problema.
 
O EMPRESÁRIO BANCA MAIS DO QUE A POPULAÇÃO IMAGINA
Um dos méritos mais importantes dessa análise é justamente mostrar algo que boa parte da sociedade desconhece: o empresário, especialmente o pequeno e médio, não está sentado sobre uma pilha de dinheiro simplesmente escolhendo pagar migalhas. Em muitos setores, sobretudo os intensivos em mão de obra, ele já arca com um custo muito superior ao que o trabalhador imagina.
 
Isso não significa que não existam abusos salariais. Existem. Mas significa que o debate honesto precisa reconhecer que, muitas vezes, a margem para pagar mais é comprimida por um ambiente tributário, regulatório e operacional sufocante.
 
Quem emprega banca aluguel, energia, contador, tributos, encargos, passivos, risco trabalhista, sazonalidade, inadimplência, investimento, manutenção e folha. E, mesmo assim, o discurso público frequentemente o retrata como se fosse o principal predador do salário.
 
A conta real mostra outra coisa: ele banca o maior valor bruto da relação, o trabalhador recebe menos do que custa, e o governo captura a maior parte ao longo da estrada.
 
O TRABALHADOR É QUEM MAIS SENTE, MAS NEM SEMPRE ENXERGA
O maior drama dessa engrenagem é que o trabalhador sente o problema todos os dias, mas nem sempre consegue visualizar sua origem. Ele sabe que o supermercado pesa, que a gasolina sufoca, que a conta de luz machuca, que a escola particular aperta, que o plano de saúde virou quase luxo. Ele sabe que o dinheiro some. Só que muitas vezes não enxerga por onde ele está sumindo.
É justamente por isso que uma crônica como esta precisa ser explicativa. Porque o problema brasileiro não é apenas econômico. É também de percepção pública. O sistema é tão confuso que consegue retirar muito e ainda esconder de quem retirou. Consegue arrecadar demais e ainda convencer a população de que o culpado principal está apenas na empresa que assina a carteira.
 
O BRASIL PRECISA ENCARAR O DEBATE QUE EVITA HÁ DÉCADAS
Nenhum país cresce de forma consistente transformando o emprego formal em artigo caro, o trabalhador em contribuinte em tempo integral e o empresário em suspeito permanente. Nenhum país fortalece sua classe média esmagando produção, consumo e renda para sustentar uma máquina pública que se expande, programas permanentes de dependência e estruturas políticas cada vez mais custosas.
 
O Brasil precisa discutir, com maturidade, desoneração da folha, simplificação tributária, estímulo à formalização, redução da tributação sobre consumo e políticas sociais que libertem, e não aprisionem. Precisa discutir eficiência do gasto público, prioridades orçamentárias e o peso real de um Estado que custa muito mais do que entrega.
 
Enquanto isso não acontecer, continuaremos presos à mesma cena: o empresário pagando mais do que a sociedade imagina, o trabalhador recebendo menos do que acredita merecer, e o governo ficando com uma fatia maior do que quase ninguém percebe.
 
A CONCLUSÃO QUE INCOMODA
No fim das contas, o salário baixo do brasileiro não pode ser explicado apenas pela figura do patrão. Essa é uma meia verdade que serve ao discurso, mas não serve à compreensão.
 
O que reduz violentamente o poder de compra no Brasil é um sistema que cobra em cima do trabalho, cobra em cima do salário, cobra em cima do consumo e depois apresenta a própria dependência social que ajudou a criar como prova de virtude política.
 
O verdadeiro drama não é apenas ganhar pouco. É descobrir que, entre o que custa gerar um emprego e o que sobra para viver, existe um sócio invisível levando uma parte enorme de quase tudo.
 
E enquanto o país continuar discutindo apenas a superfície, o trabalhador continuará olhando para o próprio salário com a sensação de que ele desaparece. Porque desaparece mesmo. Só não desaparece por acaso. Desaparece no caminho. E esse caminho, no Brasil, passa inevitavelmente pela mão pesada do sistema
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Vinícius Brandão

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Vinícius Brandão

Jornalista e produtor de TV com passagens pela TV Aratu e SBT. Especialista em IA (Exame) e graduando em Direito. Une experiência em comunicação institucional à expertise técnica em TI e web design.

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