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Terça-feira, 21 de Abril de 2026
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Política

O PREÇO DE UM CARRO E O PESO DE UM PAÍS

Coluna Vinícius Brandão

Vinícius Brandão
Por Vinícius Brandão
O PREÇO DE UM CARRO E O PESO DE UM PAÍS
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SIM, HOJE VOU FALAR UM POUCO SOBRE A ARGENTINA, O BRASIL E TAMBÉM UM PEDAÇO DE CARNE
 
Em um anúncio que repercutiu em toda a América do Sul, o ministro da Economia da Argentina, Luis Caputo, comunicou que o governo decidiu eliminar e reduzir impostos sobre carros e motos a partir de fevereiro de 2026. A medida, apresentada como parte da reorganização econômica conduzida pelo presidente Javier Milei, tem um objetivo claro e direto: devolver poder de compra à população.
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A lógica adotada pelo governo argentino é simples, quase didática. Se o imposto pesa menos, o preço final cai. Se o preço cai, o consumidor compra. Se o consumidor compra, a economia gira.
No caso dos automóveis, impostos internos que chegavam a 20 por cento para veículos entre 41 milhões e 75 milhões de pesos foram eliminados. Para os modelos mais caros, acima de 75 milhões de pesos, a tributação foi reduzida de 35 por cento para 18 por cento. A expectativa oficial é de uma redução de até 20 por cento no preço final.
 
Também houve mudanças para motocicletas e até para carros elétricos e híbridos de menor valor, que terão tarifa de importação zerada dentro de um limite anual de cinquenta mil unidades.
 
É um movimento claro de política econômica: reduzir o peso do Estado para liberar consumo.
Enquanto isso, do outro lado da fronteira, o debate segue em direção oposta.
 
No Brasil, raramente se discute o tamanho da carga tributária que acompanha praticamente tudo o que se produz, vende ou consome. Fala se muito sobre arrecadação. Fala se pouco sobre quanto custa produzir.
 
Pegue como exemplo algo aparentemente simples: um pedaço de carne bovina.
 
Antes de chegar ao prato do consumidor, esse produto atravessa uma longa estrada fiscal.
 
O pecuarista paga impostos sobre insumos, como ração, medicamentos veterinários e energia elétrica. Paga tributos sobre a propriedade rural, como o ITR. Paga encargos trabalhistas sobre funcionários. Paga impostos sobre combustível utilizado em máquinas, tratores e transporte.
 
Quando o animal é vendido ao frigorífico, há incidência de tributos sobre a comercialização.
O frigorífico, por sua vez, também entra na engrenagem tributária. Paga tributos sobre energia elétrica industrial, sobre água, sobre equipamentos, sobre embalagens, sobre transporte, sobre folha de pagamento e sobre a própria atividade industrial.
 
Quando a carne sai do frigorífico para outro estado, entra em cena o ICMS interestadual, além de contribuições federais como PIS e Cofins.
 
Ao chegar ao supermercado, novos tributos entram na conta. Há impostos sobre o funcionamento da empresa, sobre o aluguel do imóvel, sobre a folha de pagamento, sobre o sistema de refrigeração, sobre transporte e logística.
 
Se o comprador for um restaurante, a cadeia continua. O restaurante pagará impostos sobre a atividade de alimentação, sobre energia elétrica, sobre gás de cozinha, sobre funcionários, sobre equipamentos, sobre aluguel, sobre água e esgoto.
 
Só então, no último elo, a carne chega ao consumidor final, já carregando o peso de toda essa estrutura tributária invisível.
 
E isso sem contar tributos indiretos espalhados por toda a cadeia produtiva: impostos sobre combustíveis que movimentam caminhões, impostos sobre veículos de transporte, sobre pedágios, sobre embalagens plásticas, sobre maquinário, sobre serviços logísticos, sobre softwares de gestão, sobre equipamentos de refrigeração.
 
Cada etapa adiciona uma camada.
 
O resultado é um sistema em que o consumidor muitas vezes paga imposto sobre imposto.
Esse fenômeno, conhecido pelos economistas como cumulatividade tributária, é uma das marcas históricas do chamado Custo Brasil.
 
Nos últimos anos, o debate sobre carga tributária voltou ao centro das discussões após a reforma tributária aprovada durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, que criou novos modelos de tributação sobre consumo como IBS e CBS, substituindo tributos antigos. Críticos do modelo afirmam que, apesar da promessa de simplificação, o sistema continua pesado e complexo.
 
A diferença fundamental entre os dois modelos em debate na América do Sul não está apenas na ideologia.
 
Está na pergunta que cada país decide responder.
 
A Argentina, em meio a uma crise profunda, parece ter escolhido apostar na redução de impostos para estimular consumo e atividade econômica.
 
O Brasil, historicamente, tem optado por um caminho diferente: ampliar arrecadação para sustentar o tamanho do Estado.
 
Entre uma escolha e outra, existe algo muito concreto.
 
O preço que chega ao consumidor.
 
E, no fim das contas, é sempre o mesmo cidadão que paga a conta.
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Vinícius Brandão

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Vinícius Brandão

Jornalista e produtor de TV com passagens pela TV Aratu e SBT. Especialista em IA (Exame) e graduando em Direito. Une experiência em comunicação institucional à expertise técnica em TI e web design.

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