Houve um tempo em que a palavra empenhada tinha peso de contrato. Bastava um aperto de mão para que o compromisso fosse inquebrável. Hoje, esse valor parece peça de museu: combinados são maleáveis, alianças se desfazem com a mesma facilidade com que foram construídas, e a política se tornou o retrato fiel dessa instabilidade.
O ex-prefeito de Ilhéus, Jabes Ribeiro, que carrega décadas de experiência, parece sentir na pele essa mudança. Em entrevista à rádio Ilhéus FM, ele reconheceu que o partido que lidera na Bahia, o Progressistas, está bem representado no governo de Valderico Júnior: três secretarias, nomes de peso e apoio garantido na Câmara de Vereadores. Até aqui, tudo soa como parceria sólida.
Mas a política, assim como o mundo, não é mais feita apenas de cargos e arranjos formais. Jabes expôs um vazio: a falta de diálogo. “Gostaria de ter mais espaço para conversar, discutir melhor, ajudar mais”, disse, lembrando inclusive que há quase dois meses não fala pessoalmente com o prefeito. Não se trata de ruptura, mas de distanciamento — e, na política, silêncio também fala.
Essa lacuna revela a contradição do nosso tempo: alianças sem proximidade, apoio sem troca, confiança sem conversa. É como se a política tivesse perdido o fio que costura relações pessoais, em favor de uma lógica meramente institucional, quase burocrática. O resultado? Governos que andam, mas não necessariamente avançam.
Jabes ainda fez um alerta que vai além de questões pessoais: a cidade de Ilhéus perde tempo ao não organizar, desde já, a comissão para os seus quinhentos anos. Um projeto capaz de unir sociedade civil e até adversários políticos em torno de algo maior que disputas eleitorais. Aqui, mais uma vez, vemos a dificuldade atual: pensar além do imediato.
“Sou aliado, não subserviente”, resumiu Jabes. A frase é mais que uma defesa; é um lembrete de que a política precisa de lealdade crítica, e não de silêncio cúmplice.
O problema é que, no cenário atual, muitos preferem a comodidade da distância ao desafio do diálogo.
O mundo mudou. A política também. Valores antes sólidos agora flutuam. E Ilhéus, como tantas outras cidades, reflete esse novo tempo em que se governa cercado de aliados, mas nem sempre cercado de conversas. O risco é claro: quando a palavra empenhada perde o peso, o futuro se constrói sobre terreno incerto.