A entrevista concedida pelo vereador Adilson José (PT) ao programa O Tabuleiro, da Rádio Ilhéus FM, expôs com clareza um dos dilemas mais sérios da política local: a prática de usar o partido apenas como instrumento de eleição, sem compromisso com sua história, suas pautas e sua militância.
Ao afirmar que nunca esteve em sintonia com a direção municipal e que não se sente parte do projeto político do PT em Ilhéus, o vereador reforça uma postura cada vez mais comum no cenário político: a do “profissional da política”, que utiliza a legenda como trampolim, mas age como um corpo estranho dentro dela.
Não é segredo que o PT em Ilhéus convive há anos com o personalismo de Ednei Mendonça, acusado de comandar o partido como um projeto familiar e de dificultar o surgimento de novas lideranças.
Esse modelo precisa, sim, ser superado. Mas a saída não pode ser simplesmente trocar o controle patrimonialista por mandatos individuais que ignoram a vida coletiva do partido.
A crítica de Adilson pode até ecoar insatisfações legítimas da base, mas sua falta de compromisso ideológico enfraquece o PT e transforma a legenda em mero cartório de registro de candidaturas. Renovação não é despolitização. Renovação exige reconstruir práticas democráticas, resgatar a identidade histórica e abrir espaço para novas vozes comprometidas com o projeto coletivo.
O recado é direto: chega do monopólio de Ednei, mas também não basta o pragmatismo de Adilson. O futuro do PT em Ilhéus depende de lideranças que consigam equilibrar independência pessoal com responsabilidade partidária, colocando o projeto coletivo acima da autopreservação.

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