O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro afirmou, na quarta-feira 3 de junho de 2026, que o Brasil poderia discutir o Pix em uma mesa de negociação comercial com os Estados Unidos, citando o Zelle, sistema de pagamentos norte-americano, como exemplo de mecanismo semelhante ao brasileiro. A declaração foi feita em entrevista ao portal TMC News.
Em suas palavras: "Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos. Então, dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos." O ex-deputado também disse que o Brasil poderia utilizar até mesmo as terras raras e o manganês como moeda de troca nas negociações.
A fala provocou reação imediata. Em poucas horas, o episódio saiu da cobertura econômica e migrou para o centro do debate político nacional, colocando o Pix, ferramenta utilizada por mais de 150 milhões de brasileiros, no meio de uma disputa de narrativas entre governo e oposição.
O Recuo e a Culpa na Imprensa
"Jamais falei em substituir o Pix"
Após a repercussão negativa da declaração, Eduardo Bolsonaro recuou e negou ter sugerido a substituição do Pix, classificando as publicações que repercutiram suas palavras como "patifaria". Ele destacou que sua intenção era apenas mostrar que existem sistemas semelhantes nos EUA e que isso poderia ser usado como argumento em negociações comerciais.
Em seu perfil no X, Eduardo publicou um vídeo afirmando: "Eu nunca falei em substituir o Pix." Disse ainda que é a favor do sistema e, na mesma publicação, aproveitou para reforçar que a ferramenta "foi criada por Jair Messias Bolsonaro. Sem taxas. E só Bolsonaro poderia ter criado."
O Contexto: Por Que o Pix Entrou na Disputa Comercial com os EUA
A declaração de Eduardo não surgiu do nada. O Pix passou a ser citado em uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que acusa o Brasil de adotar políticas que desfavorecem empresas americanas de pagamento eletrônico. A conclusão faz parte da investigação aberta em julho de 2025 por determinação do presidente Donald Trump com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.
Pix e Zelle: sistemas parecidos ou mundos distintos?
O Pix é uma infraestrutura pública criada e operada pelo Banco Central do Brasil, funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana, amplamente integrado ao sistema financeiro nacional e com gratuidade para pessoas físicas. Já o Zelle é uma plataforma privada, cuja operação depende dos bancos participantes, e não possui o mesmo nível de universalização alcançado pelo Pix no Brasil.
O Zelle é criado e operado por instituições financeiras estadunidenses como JPMorgan, Bank of America e Wells Fargo. Para especialistas ouvidos pela imprensa, a comparação entre os dois sistemas ignora diferenças estruturais fundamentais de propriedade, acesso e controle público.
Segundo economistas, o Pix representa uma inovação pública que democratizou os pagamentos instantâneos no Brasil, com forte adesão da população e do comércio. Já o Zelle cumpre papel importante no sistema bancário dos EUA, mas sua limitação de alcance, menor transparência e controle privado tornam o sistema menos universal e menos confiável em comparação com o Pix.
A Disputa pela Paternidade do Pix
Quem realmente criou o sistema?
A declaração de Eduardo, ao afirmar que o Pix teria sido criado pelo pai, trouxe à tona um debate sobre a real história da ferramenta. Os registros oficiais do Banco Central mostram que o Pix foi resultado de uma construção técnica e institucional que atravessou diferentes gestões.
| Ano | Gestão | Etapa |
|---|---|---|
| 2014 | Dilma Rousseff | Primeiras manifestações do BC sobre pagamentos em tempo real |
| 2018 | Michel Temer | Criação do Grupo de Trabalho (GT-PI) para desenhar a infraestrutura |
| 2019 | Jair Bolsonaro | Início do desenvolvimento tecnológico e de segurança |
| 2020 | Jair Bolsonaro | Lançamento da marca Pix e início das operações ao público |
Um episódio ilustra bem o distanciamento do então presidente do projeto: em outubro de 2020, ao ser abordado por um apoiador na saída do Alvorada sobre o Pix, Jair Bolsonaro demonstrou desconhecer a ferramenta, chegando a confundi-la com medidas da aviação civil, antes de ser informado de que se tratava de um projeto do Banco Central.
A Reação Política: Governo e Oposição em Campo
Lula, Gleisi e o "complexo de vira-lata"
O governo federal aproveitou o episódio. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aliados, como a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, usaram a polêmica para reforçar o discurso de defesa das tecnologias nacionais, criticando o que chamaram de postura "entreguista" e de "complexo de vira-lata" por parte da oposição.
Flávio Bolsonaro age para proteger o legado
Do lado oposto, a base aliada dos Bolsonaro agiu rapidamente para blindar a imagem da família. O senador Flávio Bolsonaro reforçou o Pix como marca associada ao governo do pai, evidenciando que a ferramenta, por sua altíssima aprovação popular, continuará sendo uma das principais bandeiras de recall econômico nas disputas eleitorais de 2026.
Análise: Essa Disputa Muda Voto?
O que dizem os especialistas
Analistas políticos apontam duas camadas distintas de impacto. Para as bases militantes de cada lado, a disputa pela autoria do Pix funciona como combustível nas redes sociais, com alto poder de engajamento e reforço de identidade partidária.
Para o eleitor médio, no entanto, o cenário é diferente. À medida que um serviço se torna indispensável e cotidiano como o Pix, ele tende a ser assimilado como patrimônio do Estado, descolando-se da figura de seus eventuais idealizadores. O cidadão comum tende a enxergar o Pix da mesma forma que enxerga o SUS ou a urna eletrônica: uma estrutura pública cujo funcionamento prático importa muito mais do que a assinatura no decreto de criação.
Para pesquisadores, a ofensiva contra o Pix se insere em um contexto mais amplo de pressão dos Estados Unidos sobre tecnologias estratégicas desenvolvidas fora de sua esfera de influência, com implicações que vão além da simples disputa política interna.
Produzido por Mandato Bahia com base em dados verificados e fontes jornalísticas independentes.
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