Um escândalo de proporções alarmantes sacudiu o sistema penitenciário e a política baiana. A denúncia apresentada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) expõe um intricado esquema envolvendo Joneuma Silva Neres, ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, o ex-deputado federal Uldurico Jr. (MDB) e o vereador Alberto Cley Santos Lima, o Cley da Autoescola (PSD).
Segundo o MP-BA, Joneuma, que mantinha um relacionamento amoroso com Dadá, líder da facção Primeiro Comando de Eunápolis, negociava votos de presos e seus familiares por R$ 100 cada, em benefício de aliados políticos. O caso mistura corrupção eleitoral, organização criminosa, favorecimento ilícito dentro do presídio e até fuga cinematográfica de 16 detentos, tudo com suposta proteção política e influência nos bastidores do poder.
Venda de votos cativos por R$ 100 cada
O documento do MP-BA revela que Joneuma intercedia junto a Dadá para garantir reuniões clandestinas entre o criminoso e o então candidato à prefeitura de Teixeira de Freitas, sempre em ambiente controlado e longe das câmeras do presídio. Nesses encontros, também participava Cley da Autoescola, apoiado politicamente por Uldurico Jr.
A estratégia era garantir uma base eleitoral sólida e “cativa”: presos provisórios, amigos e familiares seriam “aliciados” para votar nos políticos indicados pela facção, recebendo R$ 100 em dinheiro vivo por cada voto.
“A intenção da denunciada Joneuma, ao intermediar estes encontros, era acobertar politicamente as atividades criminosas da facção, bem como favorecer seus aliados políticos,” afirma o MP-BA.
Poder absoluto dentro do presídio
O poder de Joneuma dentro do Conjunto Penal de Eunápolis era tanto que ela chegou a determinar nomeações e exonerações de servidores. Segundo a denúncia, com a influência política de Uldurico Jr., ela manipulava cargos na unidade, demitindo quem não se submetia aos interesses da facção. Entre os exonerados estavam assistentes sociais, dentistas, psicóloga e advogados.
Inclusive, a própria irmã da ex-diretora, Joceuma Silva Neres, foi nomeada advogada para defender interesses da facção.
Relacionamento amoroso com Uldurico Jr.
O caso ganha contornos ainda mais explosivos ao envolver a vida pessoal de Joneuma. Além de ser apadrinhada politicamente, ela afirma ter tido um relacionamento amoroso com o ex-deputado Uldurico Jr. Em abril, entrou na Justiça pedindo “alimentos gravídicos”, alegando estar grávida dele. Documentos anexados ao processo incluem fotos do casal, imagens de casamento luxuoso e um suposto teste de DNA apontando Uldurico como pai da criança.
Uldurico Jr., que se casou com outra mulher no ano passado, disse à imprensa que não responderá às acusações e deseja fazer rapidamente o teste de DNA.
Fuga cinematográfica: furadeira, fuzis e plano para o Rio
Além do esquema eleitoral, o MP-BA revelou detalhes sobre a fuga de 16 presos em 12 de dezembro de 2024. O plano teria rendido a Joneuma R$ 1,5 milhão em propina.
Os presos utilizaram uma furadeira a bateria para abrir um buraco no teto da cela 44. A operação contou com a omissão deliberada da direção do presídio. Três dias após escutarem o barulho do equipamento, a diretora só então mandou recolher a furadeira, escondendo-a em sua sala. Depois da fuga, ordenou que o coordenador de segurança levasse a ferramenta para fora do presídio e apagasse registros do incidente.
No dia da fuga, nove homens armados com fuzis AK-47, Parafal e AR-15 invadiram o presídio, mataram um cão de guarda e atiraram contra agentes penitenciários. Os detentos escaparam. A denúncia indica que Joneuma planejava fugir com Dadá para o Rio de Janeiro, sob proteção do Comando Vermelho.
Impacto político e criminal
O escândalo atinge em cheio figuras políticas baianas e levanta sérias preocupações sobre o nível de infiltração do crime organizado no sistema público. Além de Joneuma, o MP-BA aponta que Uldurico Jr. utilizava seu poder para sustentar práticas criminosas, fortalecendo redes políticas e criminosas no sul da Bahia.
Se confirmadas as denúncias, trata-se de um dos casos mais graves de mistura entre política, facções criminosas e corrupção eleitoral já registrados no estado.
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