Morte de professor e ex-secretário de Vitória da Conquista reacende o alerta sobre a ausência de vigilância, sinalização e estrutura técnica no extenso litoral ilheense.
A morte do professor e ex-secretário municipal de Vitória da Conquista, Antônio Marcos Andrade, conhecido como Marcão, ocorrida neste domingo (12) na praia de Olivença, zona sul de Ilhéus, evidencia um quadro de colapso estrutural na gestão costeira e o vazio operacional de políticas públicas voltadas à segurança de banhistas e turistas.
Com mais de 80 quilômetros de extensão litorânea, Ilhéus figura entre os maiores patrimônios naturais da Bahia, mas enfrenta há anos um déficit crônico de infraestrutura, sinalização e presença efetiva do poder público em suas praias.
Entre o descaso e o improviso: o custo humano da falta de planejamento
O episódio trágico envolvendo Marcão, educador e militante histórico do movimento sindical, não é um caso isolado — é o reflexo de uma gestão fragmentada e reativa, onde ações emergenciais substituem políticas permanentes de prevenção.
Boa parte das praias do município carece de postos fixos de salva-vidas, torres de observação, boias de segurança, mapas de correntezas e sinalização adequada de risco. Soma-se a isso a falta de integração entre Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Secretaria de Turismo e órgãos ambientais, o que agrava a resposta a incidentes críticos.
Cobrança técnica e propostas de soluções estruturantes.
A cidade necessita urgentemente de um Plano Integrado de Segurança Costeira, tecnicamente estruturado e com metas de execução verificáveis.
Entre as ações prioritárias, destacam-se:
Mapeamento costeiro de risco com uso de drones, sensores e georreferenciamento;
Padronização e sinalização inteligente das áreas de banho, em parceria com universidades e institutos técnicos;
Capacitação permanente dos salva-vidas, com simulações de resgate e certificações periódicas;
Instalação de postos de vigilância em pontos estratégicos, equipados com rádios e desfibriladores;
Campanhas educativas de prevenção, voltadas para turistas, escolas e comunidades costeiras;
Criação de um protocolo interinstitucional de resposta rápida, integrando órgãos públicos e privados.
Essas medidas demandam parcerias tectônicas — firmes, estruturais e de longo prazo — entre o município de Ilhéus, o Governo do Estado da Bahia, a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), o trade turístico e as forças de salvamento. Somente uma governança costeira compartilhada e baseada em evidências poderá transformar a vulnerabilidade em resiliência.
O verão se aproxima — e o tempo é curto
Com a chegada da alta temporada, o litoral ilheense volta a ser palco de intensa movimentação turística. A omissão administrativa, neste momento, pode custar não apenas vidas, mas também a credibilidade do destino turístico e a sustentabilidade econômica do setor.
O verão não pode ser mais um período de improvisos. É tempo de planejar, investir e agir com responsabilidade técnica e visão estratégica.
Um legado interrompido, uma lição coletiva
Antônio Marcos Andrade, o Marcão, deixa um legado de luta, coerência e generosidade. Sua morte, lamentada por toda a Bahia, deve servir como ponto de inflexão para uma reflexão mais ampla sobre a negligência estrutural que permeia as cidades costeiras.
Que o luto se converta em ação, e que a tragédia não se repita — porque tragédias previsíveis são, antes de tudo, falhas de gestão e de compromisso público.

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