Enquanto a maioria dos brasileiros faz malabarismos matemáticos para esticar um salário mínimo de R$ 1.412 até o fim do mês, o cenário político de Brumado, no Sudoeste da Bahia, apresentou uma narrativa paralela que beira o surrealismo. A declaração do vereador Bizunga (PCdoB), afirmando que seu vencimento de R$ 13.000 mal daria para "fazer a feira", não é apenas uma gafe retórica; é um sintoma do profundo abismo que separa os representantes dos representados.
A Matemática do Insulto
Durante uma sessão que deveria tratar de temas de interesse público, como a taxa de iluminação, o debate descambou para a contabilidade pessoal do edil. Ao reclamar dos descontos de impostos em seu salário bruto, o vereador tentou posar de vítima de um sistema que, na verdade, o coloca no topo da pirâmide financeira do país.
Para contextualizar o tamanho da distorção:
-
O Salário do Vereador: R$ 13.000,00.
-
O Salário Mínimo Nacional: R$ 1.412,00.
-
A Desproporção: O parlamentar recebe, por mês, o equivalente a mais de 9 salários mínimos.
Dizer que esse valor não supre as necessidades básicas de alimentação (a "feira") em uma cidade do interior baiano é ignorar a realidade das milhares de famílias brumadenses que sustentam casas inteiras, pagam aluguel e educam filhos com menos de um décimo dessa cifra.
O Luxo como "Necessidade"
A fala com "cara lambida" — termo usado pelo próprio vereador para atacar um colega — revela que, para alguns políticos, o conceito de subsistência foi substituído pelo de luxo. Quando um parlamentar afirma que R$ 13 mil são insuficientes, ele está dizendo, nas entrelinhas, que seu padrão de vida é incompatível com o serviço público que se propôs a prestar.
O papel de um vereador é legislar e fiscalizar, entendendo as dores de quem utiliza o transporte público, de quem depende do SUS e de quem conta as moedas no caixa do supermercado. Ao reclamar da própria remuneração em plenário, Bizunga demonstra que sua prioridade não é o bem-estar coletivo, mas a manutenção de privilégios que o blindam da realidade econômica da Bahia.
O Papel do PCdoB e a Coerência Política
Causa ainda mais estranheza o fato de a declaração vir de um quadro do PCdoB (Partido Comunista do Brasil), sigla que, historicamente, levanta as bandeiras da justiça social, da igualdade e da defesa da classe trabalhadora. A fala do vereador é um "golpe baixo" na doutrina do partido e um presente para aqueles que criticam a classe política pela hipocrisia.
Conclusão: Uma Feira de Indignação
A política brasileira padece de uma doença crônica: o descolamento da realidade. O episódio em Brumado é pedagógico para o eleitor. Ele mostra que, para alguns ocupantes de cargos públicos, a "luta" não é mais para baixar o preço do feijão para o povo, mas para garantir que o caviar — ou seja lá o que compõe a "feira" de R$ 13 mil do vereador — continue sendo pago pelo contribuinte sem reclamações.
Em outubro, ou em qualquer oportunidade de diálogo com o poder público, o cidadão de Brumado tem o direito (e o dever) de perguntar: se R$ 13 mil não fazem a feira do vereador, como ele espera que o povo sobreviva com o que resta após o pagamento das taxas que ele mesmo discute na Câmara?

Comentários: