Na política, mudar de partido quase sempre vem acompanhado de um discurso nobre. Fala-se em novos caminhos, em projetos maiores, em “contas políticas” que precisam ser feitas. Mas, no caso do ex-prefeito de Ilhéus Mário Alexandre, o Marão, a pergunta que fica é simples: avante para onde?
Fundador ao lado do senador Otto Alencar do Partido Social Democrático na Bahia, Marão agora abandona o barco que ajudou a construir. Diz que fez contas. Nos bastidores, a leitura é outra: a tentativa de manter envergadura política e continuar ocupando espaço nas cabeças de chapa nas próximas eleições.
No último sábado (14), o ato de filiação realizado no tradicional Clube 19 de Março tentou dar ares de novidade ao movimento. Mudou a cor - agora é laranja - mas, olhando de perto, o cenário parecia conhecido demais. As mesmas caras, os mesmos discursos, as mesmas promessas recicladas.
Mudou o partido. O roteiro, não.
A conta de Marão também parece não bater com a conta de boa parte da população. Muitos lembram que Ilhéus recebeu investimentos expressivos do governo estadual durante a gestão do ex-governador Rui Costa, que chegaram à casa de R$ 1 bilhão. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que o segundo mandato do ex-prefeito foi marcado por dificuldades administrativas e resultados abaixo do esperado.
O evento também teve seus momentos curiosos. O ex-candidato derrotado Bento Lima, que em tempos de campanha foi apresentado como grande nome do grupo, passou quase despercebido. Ficou do tamanho que muitos sempre disseram que ele tinha: pequeno no tabuleiro político, um soldado agora sem patente.
Sobre a deputada estadual Soane Galvão, os comentários nos bastidores são igualmente duros. Para críticos, o mandato passou praticamente em branco, sem protagonismo ou marca política relevante.
Enquanto isso, o que circula nas rodas políticas é uma estratégia clara: manter o grupo no jogo e preservar espaços de poder. A aposta, dizem alguns analistas locais, pode ser uma tentativa de retorno institucional, talvez pela Assembleia Legislativa da Bahia, onde mandato significa visibilidade, influência e claro poder.
A pré-campanha já começou. O exército político do chamado “médico do povo” tenta se reorganizar. A imagem construída durante anos de campanha continua sendo usada, ainda que muitos eleitores hoje a vejam mais como peça de marketing do que como retrato fiel da gestão.
Ao mesmo tempo, Ilhéus começa a experimentar um novo momento político. O atual prefeito Valderico Júnior aparece para alguns como sinal de renovação. Mas também terá de navegar em águas conhecidas da política local: alianças delicadas, compromissos antigos e lideranças tradicionais como Jabes Ribeiro, do Progressistas.
Entre velhos caciques e novos aspirantes ao trono, surgem ainda figuras ambiciosas que buscam ampliar espaço no cenário político da cidade.
No fim das contas, talvez a pergunta inicial continue sendo a mais importante: avante para onde?
Porque, na política de Ilhéus, a boiada se renova a cada eleição. Mas, muitas vezes, a paisagem continua exatamente a mesma.

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