A decisão do senador Angelo Coronel de deixar o PSD e romper definitivamente com a base governista da Bahia não foi um movimento isolado nem repentino. Trata-se do desfecho de uma crise política que se arrasta há meses e que escancara as tensões internas da aliança liderada pelo PT no estado, especialmente em torno da formação da chapa majoritária para as eleições de 2026.
Vice-governador eleito em 2018 e senador desde 2019, Coronel entrou em rota de colisão com o núcleo duro do governismo ao reivindicar o direito à reeleição, nos mesmos termos defendidos pelo governador Jerônimo Rodrigues, pelo senador Jaques Wagner e pelo próprio campo petista. A negativa em assegurar esse espaço foi interpretada pelo parlamentar como uma exclusão deliberada.
Ao anunciar sua saída, Coronel foi direto ao atribuir a responsabilidade ao grupo governista. Em tom duro, afirmou que foi “colocado para fora” e que não aceitaria ser tratado como figura descartável em um projeto político no qual ajudou a construir vitórias recentes. A fala sintetiza o sentimento de isolamento vivido pelo senador dentro do PSD e da base aliada.
O papel do PT na ruptura
Nos bastidores, a leitura predominante é de que a decisão de rifar Angelo Coronel partiu do comando político do PT na Bahia, que passou a trabalhar com a ideia de uma chapa majoritária fortemente concentrada em nomes petistas. O movimento ganhou força com a articulação nacional do partido e com a tentativa de acomodar interesses internos, reduzindo o espaço de aliados históricos.
A estratégia, no entanto, produziu um efeito colateral relevante: expôs fissuras na relação com o PSD, partido que até então ocupava posição estratégica na base governista, com forte presença no interior e peso eleitoral considerável.
Mesmo com declarações públicas de autonomia do PSD baiano, o que se viu na prática foi a dificuldade do partido em sustentar a candidatura de Coronel diante da pressão do campo governista. A falta de uma defesa firme por parte da direção estadual da legenda foi interpretada como abandono político.
Kassab, PSD nacional e o silêncio estratégico
Outro fator decisivo foi a postura do comando nacional do PSD. O presidente da sigla, Gilberto Kassab, tem demonstrado incômodo com a chamada “chapa puro-sangue” petista na Bahia, que exclui aliados e concentra poder. Ainda assim, optou por não comprar uma briga direta naquele momento, deixando Coronel sem respaldo efetivo.
Esse vácuo político acelerou o rompimento. Sem garantias internas e fora do desenho majoritário, o senador passou a dialogar com partidos da oposição, entre eles o União Brasil, principal adversário do PT no estado. A movimentação reposiciona Coronel no tabuleiro e o transforma em peça-chave na disputa de 2026.
Consequências para a base governista
A saída de Angelo Coronel não é apenas uma baixa simbólica. Ela fragiliza o discurso de unidade do governo Jerônimo Rodrigues, amplia o desconforto entre aliados e acende o alerta sobre a condução centralizada das decisões políticas pelo PT.
Além disso, reforça a percepção de que o projeto governista tem priorizado a lógica interna do partido em detrimento da manutenção de alianças amplas, o que pode custar caro eleitoralmente, sobretudo em um cenário de fortalecimento da oposição.
Ao migrar para o campo oposicionista e sinalizar distanciamento do governo Lula, Coronel deixa claro que não pretende sair da política em silêncio. Pelo contrário: sua decisão inaugura uma nova fase de enfrentamento e adiciona imprevisibilidade à sucessão estadual.
Um sinal de alerta para 2026
O episódio evidencia que o lulopetismo baiano enfrenta um momento de inflexão. A exclusão de aliados estratégicos, como Angelo Coronel, pode gerar novos rompimentos e redesenhar o mapa político do estado. A crise no PSD é, na prática, um reflexo das disputas de poder dentro da base governista.
A política, como se sabe, não tolera vácuos. E a saída de Coronel abre espaço para rearranjos que podem alterar profundamente o equilíbrio de forças na Bahia nos próximos anos.

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