A recente e abrupta desvalorização do cacau no mercado nacional reacende um alerta histórico no Sul da Bahia, região cuja identidade econômica, social e cultural foi moldada, ao longo de mais de um século, pela cacauicultura. Com a arroba sendo comercializada em patamares próximos a R$ 240 valor amplamente considerado inviável para a manutenção da atividade produtiva o setor enfrenta uma das mais severas crises de rentabilidade desde o colapso provocado pela vassoura-de-bruxa, nos anos 1990.
Diante desse cenário, o secretário nacional de Qualificação, Emprego e Juventude do Ministério do Trabalho e Emprego, Magno Lavigne, manifestou-se publicamente em defesa de ações emergenciais e estruturantes, destacando a necessidade de uma resposta articulada do Estado frente ao impacto social e econômico que se alastra pela região cacaueira.
A queda superior a 60% no preço do produto, em curto espaço de tempo, não pode ser analisada de forma isolada ou meramente conjuntural. Ela se insere em um contexto mais amplo de instabilidade do mercado internacional de commodities, marcado por flutuações cambiais, retração do consumo em economias centrais, reorganização das cadeias globais de suprimento e crescente concentração de poder nas tradings internacionais. Trata-se, portanto, de uma crise que extrapola a porteira das fazendas e dialoga diretamente com a lógica assimétrica do capitalismo global contemporâneo.
Ao longo da história, o cacau sempre ocupou posição estratégica na economia baiana e nacional. Foi vetor de urbanização, geração de riqueza e inserção do Brasil no comércio internacional.
No entanto, também revelou, de forma recorrente, a vulnerabilidade de regiões excessivamente dependentes de um único produto primário, sobretudo quando submetidas às oscilações de um mercado global pouco sensível às realidades locais.
Nesse contexto, Magno Lavigne tem mantido diálogo com representantes da cadeia produtiva, produtores rurais e cooperativas, acompanhando as mobilizações que exigem respostas concretas do poder público. Para o secretário, a inação diante da atual conjuntura representa não apenas um risco econômico, mas uma ameaça direta à dignidade de milhares de famílias que dependem da cacauicultura como meio de subsistência.
“Não é admissível naturalizar a desvalorização do cacau como se fosse apenas mais um ciclo do mercado. Estamos falando de renda, trabalho e coesão social. O Estado precisa atuar para garantir preços minimamente justos, acesso ao crédito, assistência técnica e políticas de proteção ao produtor”, pontua Lavigne.
O impacto da crise se estende para além do campo, atingindo trabalhadores rurais, pequenas agroindústrias, cooperativas e municípios inteiros cuja arrecadação e dinâmica econômica giram em torno do cacau. Trata-se de um efeito sistêmico, que compromete empregos, serviços públicos e o desenvolvimento regional.
Ao defender uma atuação integrada entre governo federal, governo estadual e instituições do setor, o secretário ressalta que o enfrentamento da crise exige mais do que medidas paliativas. É necessário reposicionar o cacau baiano como ativo estratégico, investindo em agregação de valor, diversificação produtiva, qualificação profissional e sustentabilidade econômica de longo prazo.
A atual crise, portanto, não é apenas um problema de preço. Ela expõe limites históricos de um modelo baseado na exportação de commodities in natura e reforça a urgência de políticas públicas capazes de reconciliar produção agrícola, justiça social e soberania econômica. O futuro da cacauicultura no Sul da Bahia dependerá da capacidade coletiva de transformar esse alerta em oportunidade de reestruturação e resiliência.
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