Para a minha geração, a censura é sempre uma afronta. Censura contra humoristas, então, parece inimaginável...
Por ignorância, eu não conhecia o humorista Leo Lins, e minha primeira reação foi de estranheza diante da ideia de mandá-lo para a cadeia por piadas.
Decidi, porém, ouvir outras opiniões e me informar melhor sobre o caso. Foi então que me deparei não com um humorista que eventualmente exagerou numa piada ou teve mau gosto noutra, mas com algo muito diferente. Leo Lins não faz humor: ele humilha e agride minorias para lucrar, sob os risos e aplausos de quem compactua com essa violência.
Não há graça em humilhar pessoas negras por serem negras, pardas, morenas ou de qualquer outra tonalidade. Qual é a graça existente na escravidão? Qual é a graça em achincalhar uma pessoa gorda – que já sofre todos os preconceitos da sociedade – ou uma pessoa pobre, simplesmente por ser pobre? Há graça nisso? Que graça há em sexualizar crianças, desprezar idosos por serem idosos ou zombar da cultura alheia? Se não chamamos isso de ignorância, só podemos chamar de crime. E, neste caso, são as duas coisas: ignorância de quem consome, compra, aplaude e financia esse conteúdo; e crime evidente de quem o produz, promove e lucra com ele. A única coisa que ninguém ignora aqui é a lei – todos sabem que estão cometendo um crime.
Neste caso, não são o humor ou a arte que estão sendo punidos. A punição se justifica porque o conteúdo vendido como arte está longe de sê-lo. Na verdade, trata-se de preconceito estrutural: racismo, xenofobia, sexismo, machismo, sexualização de crianças, etarismo (aversão a idosos), heterossexismo e outras formas de opressão.
A arte não precisa agradar, e o belo não é obrigatório. Ela pode – e deve – transgredir, provocar, denunciar, protestar, expor e incomodar. Contudo, como tudo em sociedade, existem limites baseados na educação, na ética, no respeito às diferenças, na diversidade cultural, na proteção das minorias e nas normas civilizatórias aceitas.
Fazer arte não coloca a pessoa acima do mundo ou da legalidade. Caso contrário, eu poderia alegar "criação artística" para filmar um assassinato real – digamos, um tiro na cabeça de alguém – sob o pretexto de “expor a contração da dor, o barulho do disparo, a sensação do oprimido e do opressor”. Se eu montasse um espetáculo assim e saísse matando pessoas em galerias de arte ou palcos de teatro, sob fortes aplausos no exato momento em que a bala perfurasse o crânio da vítima... onde estaria a arte? Só haveria crime. E qual seria a diferença entre isso e outros crimes?
É por isso que Leo Lins merece, de fato, ser punido. Se serão oito anos de cadeia, multa ou ambas, são questões técnicas do processo. O fato incontornável é que esse senhor extrapolou o território da arte para o do crime. Ele não ousou – ele simplesmente violou.
Gerson Marques

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