Visto assim, parece uma obra de arte surrealista, psicodélica — quem sabe uma síntese caótica da vida, pincelada por um artista universal, poetizada por concretistas ou sintetizada por um designer digital pronto para reinventar o mundo.
Mas, dirão os cartesianos, trata-se da plataforma sobre a qual fomos montados, um a um: naturalmente, industrialmente, celularmente, repetidamente, evolucionista, sintética e complexa. Uma tecelagem de milhões de anos, uma trama universal, o tecido da vida acumulando dados de sua própria experiência na busca pela colonização da aridez do vazio cósmico.
Nada é acaso; tudo é síntese da experiência vivida, depurada até o unicelular — essa unidade capaz de replicar-se em outras unidades, em múltiplas formulações. Unidas, erguem um corpo físico animal: ossos, músculos, nervos, sangue, tecidos, massas, cartilagens... juntas, capazes de relações simbióticas, correlações e complementos articulados que nos colocam de pé, andando, falando, crescendo, pulsando — vivos.
Uma formulação biológica que traz em si o mistério da alta consciência: o saber, a capacidade de formular, investigar e criar novas experiências. Experiências capazes, inclusive, de redefinir o próprio “software”, num caminho sem volta de nós sobre nós mesmos.
Ao final — sem que exista final — chegamos sempre à mesma conclusão: a matéria-prima para tecer essa obra de arte em forma de design da vida é a mesma que brilha nas estrelas, em todo o universo: água, sódio, potássio, íons, proteínas, minérios.
Por isso, somos, enquanto corpo, reciclados o tempo todo, vivos ou mortos; não permanecemos as mesmas células do início ao fim. Somos metamorfoses ambulantes, com início, meio e fim — para novamente ter início, meio e fim. Assim está escrito na natureza, em sua universalidade e em sua dimensão existencial: a constância da mudança é o que define e mantém a vida. E esta, ao se manifestar no oposto da aridez universal, colonizando e ocupando o vazio, constitui-se naquilo que nossas consciências coletivas — também moldadas por milhares de anos acumulados — chamam de Deus: a própria vida, a existência, a luz universal do Deus imanente.

Sobre a foto: Este é o modelo mais detalhado de uma célula humana até o momento, obtido a partir de conjuntos de dados de raios X, RMN e microscopia crioeletrônica. Seção transversal da paisagem celular através de uma célula eucariótica.