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Domingo, 17 de Maio de 2026
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Política

A Lagoa Encantada e o Legado de Pero de Magalhães Gândavo: Mistérios Históricos e Geológicos

Coluna Gerson Marques

Gerson Marques
Por Gerson Marques
A Lagoa Encantada e o Legado de Pero de Magalhães Gândavo: Mistérios Históricos e Geológicos
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Em 1576, o cronista português Pero de Magalhães Gândavo publicava História da Província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, a primeira obra historiográfica sobre o Brasil — um marco que abriu as portas do Novo Mundo aos olhos europeus. Nascido em Braga, Portugal, por volta de 1540, Gândavo era um humanista versado em latim, professor e administrador colonial. Sua estada na Bahia, provavelmente entre 1565 e 1570, como Provedor da Fazenda Real e residente em Salvador, permitiu-lhe observar de perto a Capitania dos Ilhéus, onde descreveu a Lagoa Encantada, ou Lagoa de Itaipí. Este nome, que poderia significar em português “pedra que canta” ou “pedra chata” (ambos com referências nas lendas da lagoa), era como os povos originários a chamavam: um corpo d’água que fascinou colonizadores e, até hoje, intriga pesquisadores.


Mas o que Gândavo viu na lagoa? Suas descrições de uma vastidão navegável por grandes naus, habitada por peixes-bois, contrastam com a realidade atual. Seria exagero de um propagandista ou reflexo de mudanças ambientais drásticas? E o que aconteceu com os peixes-bois que ele, um dos primeiros europeus a consumir, descreveu com tanto entusiasmo?


O livro História da Província Santa Cruz tinha um propósito claro: atrair colonos portugueses para o Brasil, uma terra então negligenciada em favor das Índias Orientais. Gândavo, com seu olhar renascentista, descrevia a fauna, a flora e as riquezas do território com entusiasmo, destacando a fertilidade das terras e a abundância de recursos. Na Capitania dos Ilhéus, a 30 léguas da Bahia de Todos os Santos, ele relatou uma lagoa de “três léguas de comprido e três de largo” (cerca de 16,7 x 16,7 km, ou 277,7 km², considerando a légua de 5,555 km), com profundidade entre 10 e 15 braças (16,8 a 25,2 m).

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Apresentou-a como navegável por “quaisquer naus, por grandes que sejam, à vela”, com ondas “furiosas” em dias de vento forte, conectada por um rio estreito que desafiava a navegação. Essa descrição, quase mitológica, visava seduzir colonos, mas levanta questões: seria a Lagoa Encantada realmente tão vasta ou Gândavo exagerou para cumprir sua missão propagandística?


Hoje, a Lagoa Encantada, em Ilhéus, Bahia, possui apenas 9,357 km² — infinitamente menor que os quase trezentos quilômetros quadrados relatados por Gândavo. Essa discrepância alimenta o debate: erro de medição ou mudanças geológicas profundas? Estudos geológicos apontam que lagoas costeiras, como a Encantada, são suscetíveis à sedimentação, intensificada pelo desmatamento e pela agricultura colonial, que, à época de Gândavo, já contava com oito engenhos de açúcar na região. Em 500 anos, taxas de sedimentação de 1 a 10 mm por ano poderiam acumular até 5 metros de sedimentos, reduzindo profundidade e área. A urbanização das margens e possíveis alterações no fluxo do Rio Almada — que conecta a lagoa ao mar — também podem ter contribuído para sua contração. No entanto, a magnitude da redução sugere que Gândavo pode ter superestimado as dimensões, uma prática comum entre cronistas renascentistas, que buscavam impressionar.

Mapas históricos não oferecem precisão suficiente para confirmar, mas a possibilidade de uma lagoa maior, conectada diretamente ao mar, não pode ser descartada.
Outro destaque da narrativa de Gândavo é a presença de “muitos peixes-bois” na lagoa, descritos por ele como mamíferos com “focinho como o de boi” e carne tão saborosa que “parece lombo de porco ou de veado”. Ele foi um dos primeiros europeus a relatar o consumo do peixe-boi-marinho (Trichechus manatus), então abundante no litoral brasileiro do século XVI. Gândavo detalha sua caça com arpões e a surpresa dos colonizadores com suas mamas, que amamentavam os filhotes, reforçando a percepção de que “não parece peixe”.


Durante o período colonial, a caça intensiva por carne, gordura e couro, relatada por cronistas como Gândavo e Gabriel Soares de Sousa, dizimou populações de peixes-bois. Até o século XX, a espécie foi extinta na Bahia, incluindo Ilhéus, devido à exploração e à degradação de habitats, por assoreamento e poluição. Hoje, o peixe-boi-marinho sobrevive em áreas protegidas do litoral entre Alagoas e Piauí, com cerca de 1.100 indivíduos, segundo a Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA). Na Amazônia, o peixe-boi-amazônico persiste em lagos como Mamirauá, mas enfrenta ameaças como a poluição por mercúrio. Na Lagoa Encantada, a ausência de vegetação aquática abundante e os impactos antrópicos tornam improvável a presença de peixes-bois sem esforços de reintrodução, como os conduzidos em Sergipe e Alagoas pelo ICMBio.


Gândavo descreve a lagoa como navegável por grandes embarcações, com uma passagem “tão estreita” que “apenas cabe um barco”. Hoje, a Lagoa Encantada é conectada ao mar pelo Rio Almada, mas a menção a uma passagem direta sugere uma configuração geológica diferente. Estudos indicam que, no Holoceno Médio (há cerca de 5.000 anos), o nível do mar no litoral brasileiro era de 2 a 4 metros mais alto, possibilitando conexões mais amplas entre lagoas costeiras e o oceano. É plausível que, no século XVI, a Lagoa Encantada tivesse uma passagem direta ao mar, posteriormente alterada por barreiras de areia ou assoreamento. Registros além dos de Gândavo são escassos, mas a navegação em lagoas costeiras era comum na época colonial, como indicado por relatos de outros cronistas. A ausência de documentação específica sobre a Lagoa Encantada reforça a importância do texto de Gândavo como fonte primária.


A Lagoa Encantada, com sua história geológica e ecológica, permanece um enigma. A redução de sua área, a extinção dos peixes-bois e as mudanças em sua conexão com o mar refletem a interação entre processos naturais e humanos. A sedimentação, intensificada pela agricultura colonial, e as alterações no nível do mar moldaram o litoral de Ilhéus. Porém, a falta de mapas precisos do século XVI deixa lacunas. A descrição de Gândavo, embora possivelmente exagerada, é um testemunho valioso da paisagem colonial e da biodiversidade perdida.

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