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Segunda-feira, 11 de Maio de 2026
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"Nossos filhos pagaram por guerra que não era deles”, diz Mãe de Maio

Edson Rogério, filho de Débora Maria da Silva, foi morto com cinco tiros pela PM de São Paulo durante os ataques conhecidos como Crimes de Maio de 2006, há 20 anos.

Mandato Bahia
Por Mandato Bahia
© Paulo Pinto/Agência Brasil
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No dia 14 de maio de 2006, na Baixada Santista, Débora Maria da Silva reuniu a família para celebrar mais um Dia das Mães com os três filhos. A celebração seria em dobro já que quatro dias antes ela havia acabado de completar 48 anos de idade. No dia seguinte, no entanto, sua alegria ruiu: seu primogênito, o gari Edson Rogério Silva dos Santos, então com 29 anos, foi assassinado na Baixada Santista.

Naquele momento, há 20 anos, o estado de São Paulo enfrentava uma de suas histórias mais brutais. Ataques coordenados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e uma reação promovida por agentes policiais e grupos de extermínio ocorridos entre os dias 12 e 21 de maio levaram à morte mais de 500 pessoas nos episódios que ficaram mais tarde conhecidos como Crimes de Maio. O filho de Débora foi uma dessas vítimas. Grande parte desses mortos era jovem, negra e morava na periferia. Como Edson Rogério.

“Todo meu aniversário eu não gostava muito assim [de comemorar]. Sempre comemorava o Dia das Mães. E, em 2006, o dia 10 de maio caiu em uma quarta-feira, que foi o dia da cirurgia dele. Ele tinha operado o [dente do] siso”, lembra Débora.

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No domingo, com um bolo e um churrasquinho, o aniversário foi celebrado. Aquele foi o último parabéns que o filho cantou para a mãe. “Ele disse que iria embora porque iria trabalhar no dia seguinte cedo. Ele me deu um beijo e foi embora. Depois eu só vi ele dentro do caixão”, conta.

Débora Maria da Silva perdeu o filho Edson Rogério Silva dos Santos, há 20 anos, assassinado pela PM de São Paulo - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O filho de Débora foi morto no dia seguinte ao da comemoração de aniversário, após ter parado para abastecer a moto em um posto de gasolina. “Na hora do velório, veio um rapaz e falou para mim assim: ‘Acabou a gasolina da moto dele e ele pediu socorro para mim. E eu desci o morro para dar socorro para ele. Só que, quando eu cheguei no posto, tinha duas viaturas abordando ele e eu fiquei de longe esperando a abordagem’”, contou o rapaz para Débora.

“Depois que fizeram a abordagem nele, os policiais saíram do posto, subiram o morro e ficaram esperando ele [meu filho] lá em cima. Mataram o meu filho encostado num muro e ele caiu sobre umas pedras, umas pedras de contenção”, relata a mãe.

Naquela segunda-feira, após o Dia das Mães, o filho de Débora morreu com cinco tiros. Foi quando aquela mãe morreu um pouco também. “Ele tomou um tiro em cada pulmão, um no coração, dois nos glúteos. Então o meu filho teve morte instantânea”, relembra Débora. “Esses cinco tiros que eles deram no meu filho eu senti todos. Todos os tiros eu senti. Mas do coração eu senti mais, sinto até hoje, ele dói. Foi o fatal.”

Passados 20 anos, o aniversário de Débora caiu exatamente em um domingo de celebração do Dia das Mães. Uma data que ela já não consegue mais comemorar.

“Não tem mais o que comemorar. Isso o Estado levou de mim perversamente. Eu não consigo comemorar o Dia das Mães. Eu não consigo comemorar mais o dia que eu fazia aniversário, que eu comemorava no Dia das Mães. Eu não perdi só o Rogério. Eu perdi minha família”, diz ela.

Mãe de Edson Rogério Silva dos Santos, assassinado há 20 anos durante os Crimes de Maio, Débora Maria da Silva luta por justiça, responsabilização e reparação - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Memória

Neste ano, Débora voltou a reviver tudo o que enfrentou há 20 anos. Separando fotos do filho para montar um acervo que fará parte da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e também concedendo diversas entrevistas, Débora volta a chorar. “Estou muito deprimida porque este ano completam-se 20 anos e pode prescrever o crime do meu filho. É Dia das Mães, meu aniversário e a cabeça está irada e eu tentando segurar minha saúde mental para poder segurar esse barco.”

Pouco depois da morte do filho, Débora ajudou a fundar o movimento Mães de Maio, uma rede formada por mães, familiares e amigos de vítimas da violência do Estado. O movimento virou uma referência na busca por justiça e por memória e no combate à violência estatal.

“Maio de 2006 é uma história que nós contamos como mães porque nossos filhos morreram como suspeitos. Jamais se merece uma dor [como esta]. E o movimento vem traçando esse paradigma tão contundente e a gente tem propriedade de falar que nós acolhemos até mãe de policial. Para você ver que a nossa dor não se mede”, diz.

Muitos anos se passaram desde então, mas o movimento continua lutando por justiça, que ainda não se concretizou. Na semana passada, por exemplo, o Mães de Maio se uniu com a organização Conectas Direitos Humanos para enviar um documento de apelo urgente à Organização das Nações Unidas (ONU) denunciando a omissão do Estado brasileiro em relação aos Crimes de Maio.

“Nenhuma dessas execuções foi devidamente esclarecida, nenhum agente do Estado foi responsabilizado e tampouco as famílias das vítimas receberam reparação adequada”, relatam as entidades no documento.

Débora Maria da Silva (à direita) é uma das fundadoras do movimento Mães de Maio, rede formada por mães, familiares e amigos de vítimas da violência do Estado - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

No entendimento de Débora, Edson Rogério foi morto por uma violência promovida pelo Estado brasileiro e que ocorreu não só por meio de uma execução, mas também por omissão. “Não foram os faccionados que mataram nossos filhos. Foi o crime organizado, que é o terrorismo do Estado. Foi uma retaliação, e nossos filhos pagaram por uma guerra que não era deles”, diz. “Foram as mães que morreram também porque não aceitaram a impunidade do Estado, porque quem nos mata, para além da morte dos nossos filhos, é a impunidade.”

Para essa mãe – e para muitas outras que são vítimas de violências policiais – essas mortes jamais podem ser esquecidas e sequer ficarem impunes sob risco de continuarem se repetindo.

“A gente não pode naturalizar essas mortes – e principalmente de morte cometida pela polícia. O massacre de maio é um massacre continuado, estamos vendo isso hoje em dia. Nossos filhos morreram como suspeitos e nós mostramos que nossos filhos têm nome, sobrenome e residência fixa”, desabafa Débora.

“Hoje em dia a gente vê esses crimes continuados. É o mesmo modus operandi. Eu tenho vergonha, mas mesmo assim eu tive que dar colo para várias mães do Brasil. E acordei essas mães para que elas não tenham medo de dizer que a polícia é violenta e também para dizer que o filho dela importa mesmo depois de morto.”

Débora Maria da Silva participa da inauguração do Memorial dos Crimes de Maio e do Genocídio Democrático, em maio de 2016 - Foto: Rovena Rosa/Arquivo/Agência Brasil

Vinte anos após o massacre, as mães seguem em luta por um país de memória e de justiça – e menos violento.

“Nós queremos continuar vivas para poder parir um novo Brasil ou uma nova sociedade, porque nós parimos seres humanos. Nós não parimos suspeito. O suspeito quem nos rotula é o crime organizado, que é esse Estado muito aparelhado. E isso vem desde o tempo da ditadura.”

A história de Débora e de outras mães que perderam seus filhos durante os Crimes de Maio será relembrada pelo programa Caminhos da Reportagem. Chamado de Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas, o episódio irá ao ar nesta segunda-feira (11) a partir das 23h, na TV Brasil.

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FONTE/CRÉDITOS: Elaine Patricia Cruz e Ana Graziela Aguiar – Repórteres da Agência Brasil e TV Brasil
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