Há momentos na política em que o tempo deixa de ser apenas um marcador cronológico e passa a funcionar como um espelho refletindo não apenas o que foi feito, mas o que deixou de ser realizado.
O recente anúncio da deputada estadual Soane Galvão, confirmando o nome do ex-prefeito Mário Alexandre (Marão) como pré-candidato a deputado estadual em 2026, é um desses momentos em que o passado volta a se projetar no presente, pedindo uma nova leitura.
O gesto político de Soane feito em sua própria casa, diante de parte da imprensa e aliados foi mais do que uma declaração de apoio. Foi uma tentativa de reordenar o tempo do grupo político que, desde as últimas eleições municipais, parece atravessar um período de incerteza e reavaliação. Ao afirmar publicamente que “Marão continua sendo o nosso líder”, a deputada aciona um gatilho simbólico: o da continuidade em meio à instabilidade.
Mas o tempo político não perdoa estagnação. Ele cobra adaptação, leitura de cenário e capacidade de reconhecer os próprios limites. E é justamente nesse ponto que o movimento de Soane e Marão ganha contornos mais complexos.
Em Ilhéus, onde a política é feita sob o peso de personalismos históricos e disputas internas, liderar um grupo não é apenas ocupar um espaço de comando é sobreviver a ele. Marão, ao assumir novamente o protagonismo, enfrenta o desafio de equilibrar a força da experiência com a fragilidade das memórias eleitorais recentes. Sua trajetória à frente da prefeitura deixou marcas: avanços em infraestrutura e obras visíveis, mas também críticas quanto à gestão política, às alianças e ao desgaste de imagem nos últimos ciclos eleitorais.
Ao mesmo tempo, seu discurso de reencontro e gratidão, carregado de emoção, revela um político consciente da própria vulnerabilidade.
“Eu vivo da política, mas eu construo amizade com a política”, afirmou, em tom de humanização. Nessa frase, há tanto a tentativa de se reconectar com a base quanto o reconhecimento de que a política de Ilhéus, hoje, exige mais do que lealdades pessoais exige credibilidade, propósito e coerência com o tempo que corre.
O retorno de Marão à linha de frente não é apenas uma decisão interna de grupo. É também uma resposta à ausência de novas lideranças consolidadas no cenário local. O eleitor de Ilhéus, cada vez mais crítico e desconfiado, parece assistir à política municipal como quem acompanha uma novela de capítulos repetidos: os mesmos personagens, os mesmos enredos, as mesmas promessas de reconstrução.
Mas há algo que diferencia este novo movimento. Ele não surge em um terreno fértil de otimismo, e sim num campo onde o capital político tradicional enfrenta erosão constante. A confiança pública tornou-se um recurso escasso e o tempo, um adversário implacável.
A pré-candidatura de Mário Alexandre, portanto, é mais do que um ato de retorno. É uma tentativa de testar até onde a memória coletiva está disposta a perdoar e acreditar novamente. É o reencontro entre a força do passado e os limites do presente.
Para Ilhéus, esse episódio revela algo maior: a dificuldade que a cidade tem de romper o ciclo da dependência política e de construir novas referências de liderança. Enquanto isso, o relógio segue girando e o tempo, como sempre, cobra daqueles que insistem em voltar, a sabedoria de saber até onde podem chegar.

Comentários: