Esta é uma raríssima fotografia de um navio negreiro, tirada por Marc Ferrez no Rio de Janeiro em 1882, quase três décadas depois de o tráfico transatlântico ter sido formalmente proibido (1850), quando a pressão internacional e interna já tornava insustentável a continuidade da escravidão.
Apenas quatro anos depois, em 1888, viria a Lei Áurea.
O Brasil leia-se: nossas elites econômicas, agrárias e governantes manteve o escravismo baseado na cor da pele por quase quatro séculos inteiros. Fomos o maior destino da diáspora forçada africana: cerca de 4,9 milhões de africanos escravizados desembarcaram vivos em nossos portos (quase 45% de todos os que atravessaram o Atlântico), e estima-se que outros milhões tenham morrido na travessia ou nos portos de embarque. Nenhum outro país do mundo recebeu tanto.
E fomos, com o orgulho cínico das elites da época, a última nação independente das Américas e uma das últimas do planeta a abolir oficialmente a escravidão. E só o fizemos sob a pressão brutal da Marinha Britânica, de bloqueios navais, de leis impostas à força e, principalmente, da resistência incansável dos próprios escravizados e dos movimentos abolicionistas no Brasil.
Laurentino Gomes, em seu livro Escravidão, documenta navios que chegavam a embarcar mais de 700 africanos de uma só vez. A mortalidade média no tráfico ilegal do século XIX era de 20% a 30%, e em algumas viagens superlotadas ultrapassava 50%. Corpos eram lançados ao mar diariamente; há relatos de que cardumes de tubarões acompanhavam os navios negreiros por centenas de quilômetros, atraídos pelo cheiro constante da morte um dos episódios mais macabros da história da humanidade.
E, como em outros momentos sombrios, tudo era feito “em nome de Deus”.
A verdade incômoda é que a escravidão formal nunca foi plenamente erradicada em suas raízes. Até hoje o Brasil lidera estatísticas globais de trabalho análogo à escravidão: dezenas de milhares de trabalhadores muitos negros e migrantes são resgatados anualmente em condições de servidão por dívida, jornadas exaustivas, alojamentos precários e violência física. Mudou o nome, mudou a lei, mas a lógica senhorial permanece viva.
A escravidão de africanos e seus descendentes deixou no Brasil uma dívida histórica, moral e material absolutamente impagável. Ela moldou nossa estrutura social, nossa economia, nossa distribuição de riqueza e de poder. Criou um racismo estrutural tão profundamente enraizado que ainda hoje se manifesta em detalhes aparentemente banais, mas profundamente simbólicos e brutais: o Brasil é o único país do mundo onde edifícios residenciais de classe média e alta são projetados com “quarto de empregada” de 2 m × 2 m, sem janela, ao lado da área de serviço, e com elevador separado o moderno “elevador de serviço”, que reproduz, em pleno século XXI, a separação entre “casa-grande” e “senzala”.
Esse passado não é apenas história. Ele é presente. E, enquanto não enfrentarmos essa herança de frente com reparação, com políticas públicas agressivas, com educação antirracista e com a ruptura definitiva das estruturas de privilégio herdadas continuaremos sendo um país que carrega a escravidão nas entranhas, mesmo tendo abolido os grilhões de ferro há 137 anos.
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