O encontro entre o ex-ministro Geddel Vieira Lima (MDB) e o prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo de Carvalho (União Brasil), realizado nesta terça-feira (20), ganhou forte repercussão nos bastidores da política baiana. A reunião, ocorrida na residência do cacique emedebista em Salvador, foi interpretada por integrantes do governo Jerônimo Rodrigues (PT) como um gesto político calculado e carregado de simbolismo.
No núcleo do Palácio de Ondina, a avaliação predominante é de que Geddel buscou enviar um recado claro ao governo: o MDB mantém alternativas políticas caso não seja preservado o espaço que atualmente ocupa na chapa majoritária. O ponto central da tensão gira em torno da vice-governadoria, hoje ocupada por Geraldo Júnior (MDB), cuja recondução é defendida pelos irmãos Vieira Lima.
A leitura interna é de que o movimento ocorre em meio às negociações entre o PT e o PSD para a composição da chapa ao Senado em 2026. Esse rearranjo tem pressionado diretamente o espaço do MDB, aumentando a insatisfação do partido, que vê seu protagonismo ameaçado após anos de aliança com o grupo petista no comando do Estado.
Além desse fator, outro elemento passou a gerar preocupação, ainda que de forma secundária, dentro do MDB: a possível filiação do prefeito de Jequié, Zé Cocá, ao PSB. Com forte densidade eleitoral no interior e bom trânsito entre diferentes grupos políticos, Cocá passou a ser citado em conversas internas como um nome competitivo para a vaga de vice, o que ampliaria ainda mais a disputa na base governista.
Publicamente, tanto Geddel quanto José Ronaldo trataram de minimizar o encontro, afirmando que a conversa teve caráter informal e que não houve discussão sobre alianças partidárias ou filiações. Apesar disso, as especulações se intensificaram nos bastidores e passaram a alimentar diferentes cenários políticos.
Um dos cenários cogitados aponta para a possibilidade de José Ronaldo servir como elo para uma eventual reaproximação do MDB com a oposição, repetindo uma estratégia inversa à adotada em 2022. Nesse contexto, não está descartada, nos bastidores, a hipótese de o prefeito feirense compor uma chapa oposicionista liderada por ACM Neto (União Brasil), ocupando a vaga de vice-governador pelo MDB.
Outra leitura, considerada mais confortável pelo Palácio de Ondina, sugere que o encontro tenha sido apenas uma sinalização de força do MDB para manter sua posição dentro da base governista. Nessa hipótese, José Ronaldo poderia até ser sondado como alternativa para a vice em uma eventual chapa governista, preservando o partido no centro das decisões estratégicas.
O momento do encontro também chamou atenção. José Ronaldo esteve reunido recentemente com o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), no Palácio Thomé de Souza, o que reforçou a percepção de que o prefeito de Feira de Santana tem ampliado seu trânsito político e passou a ocupar papel relevante nas articulações pré-eleitorais.
Apesar de o governo apostar, oficialmente, na manutenção da aliança com o MDB, aliados de Jerônimo Rodrigues admitem, em reservado, que o histórico político dos irmãos Vieira Lima exige cautela. Na avaliação de interlocutores do Palácio, quando se trata do MDB, gestos silenciosos costumam carregar mensagens mais contundentes do que discursos públicos.
