A violência, tão presente em nosso país, impactou profundamente nossas vidas e nossa comunidade. Em Ilhéus, onde moro há 40 anos, recebemos turistas diariamente na Fazenda Yrerê, muitos deles encantados com a beleza e a cultura da cidade. Alguns até planejam se mudar para cá, mas, naturalmente, perguntam sobre a violência. Minha resposta é sempre honesta: sim, enfrentamos problemas com violência, como outras cidades brasileiras, mas ela é majoritariamente contida, ligada a disputas pelo tráfico em áreas específicas, geralmente afastadas do centro e dos bairros urbanizados. No cotidiano, é seguro usar o celular e até andar à noite no centro, e casos graves de violência que extrapolam as periferias ou áreas mais vulneráveis são raros. Não se trata de mascarar a realidade, mas de apresentá-la com equilíbrio.
Criei meus filhos em Ilhéus e, em quatro décadas, nunca fomos vítimas de violência. Na Fazenda Yrerê, onde moramos por muitos anos, houve apenas um episódio isolado no segundo ano, sem maiores consequências, e nada mais desde então. Os episódios violentos deste fim de semana, embora trágicos e dolorosos, são uma exceção, um ponto fora da curva, e não refletem o cotidiano da nossa cidade.
Fiquei profundamente triste com comentários, inclusive de pessoas ligadas ao turismo, em publicações de grande alcance nacional, que retrataram Ilhéus como extremamente violenta, exagerando nas tintas e distorcendo nossa realidade. Essas narrativas prejudicam a imagem da cidade e ignoram o contexto mais amplo. Pior ainda é a tentativa de politizar a questão. Especialistas que estudam a violência, como os do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Ipea, responsáveis pelo Atlas da Violência, apontam que ela não é um problema de cunho político, mas sim um fenômeno complexo, enraizado em fatores estruturais, históricos e culturais.
Nós, brasileiros, temos um histórico de violência que remonta à nossa formação. Fomos responsáveis pelo extermínio de milhões de indígenas e pela escravização de cerca de sete milhões de africanos. Fomos a última nação do mundo a abolir a escravidão, em 1888, e, mesmo após a abolição, não garantimos aos libertos e seus descendentes acesso à educação, saúde, moradia ou lazer. Essa exclusão estrutural lançou as bases para as desigualdades que alimentam a violência até hoje. Segundo o Atlas da Violência 2025, a taxa de homicídios de pessoas negras na Bahia é 2,7 vezes maior que a de não negras, evidenciando como a desigualdade racial perpetua a violência. Além disso, o Brasil registra índices alarmantes de violência contra crianças, mulheres, pessoas LGBT e outros grupos vulneráveis, o que reflete um problema cultural e histórico, não apenas político.
No primeiro semestre de 2025, a Bahia registrou 2.053 mortes violentas (homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte), uma redução de 7,3% em relação ao mesmo período de 2024 (2.214 casos), conforme dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. Em Ilhéus, que aparece no ranking das cidades mais violentas do Brasil (19ª posição, com taxa de 54,7 homicídios por 100 mil habitantes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024), a violência está concentrada em áreas específicas e não define a experiência da cidade como um todo. Esses números mostram avanços, mas também o longo caminho a percorrer.
Politizar a violência, como vimos em alguns comentários em publicações de políticos e autoridades, é um desserviço. Episódios extremos, como os deste fim de semana, podem ocorrer em qualquer cidade, sob qualquer governo, como vemos no Rio de Janeiro e em São Paulo, governados por políticos de direita há anos, ou em outros estados, independentemente de ideologia. Atribuir a violência a um partido ou governo é fugir do problema real e alimentar oportunistas que surfam na dor coletiva para ganhar votos.
Resolver a violência é um desafio de toda a sociedade e exige, acima de tudo, justiça social. Isso não nos impede de cobrar soluções dos governantes, como mais investimento em segurança, educação e políticas públicas inclusivas. No entanto, reduzir o debate a disputas ideológicas é perpetuar o problema, em vez de enfrentá-lo. Recomendo a leitura do Atlas da Violência, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma organização da sociedade civil que pesquisa a violência no Brasil há anos. Lá, encontramos dados e análises que nos ajudam a compreender o problema em sua complexidade.
Ilhéus é muito mais do que os episódios isolados que a mídia amplifica. É uma cidade acolhedora, rica em história, cultura e belezas naturais. Vamos enfrentar a violência com seriedade, buscando soluções verdadeiras e definitivas, sem cair em narrativas sensacionalistas ou divisões políticas que só nos afastam do caminho para uma sociedade mais justa e segura.
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